segunda-feira, 14 de abril de 2014

Bolices e manias.

Festejar é bom, eu adoro festejar. É das melhores coisas que faço na vida, sendo que até tenho jeito para a coisa. Aliás, se tiver razões para isso, sou capaz de festejar durante duas semanas inteiras, fins-de-semana incluídos. O meu único problema é que os meus festejos são muito à base do estar, vá lá, feliz... E, ao que parece, muitas das vezes isso não é suficiente.
Vamos então falar de bolos, como é óbvio: Bolos grandes e lêvedos, bolos pequenos e atarracados, bolos com recheio de creme e creme com recheio de bolos. Existe um pouco de tudo, e há um festejo em particular que aglomera todos estes tipos de confeitaria: O aniversário. Um bolo de aniversário é capaz de alimentar quinze gerações de formigas ao longo de todas as suas vidas; também consegue, em apenas três garfadas, transformar qualquer corredor de maratonas num diabético em fase terminal. Ainda assim, é sempre com bolos de aniversário que festejamos, claro está, os aniversários. E eu não tenho nada contra, porque como já disse até sou bastante talentoso na nobre arte do festejo. Mas não sei fazer bolos, e a minha veia artística peca por isso.
A verdade é que eu não sei fazer bolos porque nunca fiz nenhum, e nem sequer faço muita questão em aprender como se faz. O meu principal dilema é não conseguir perceber o porquê de se festejar eventos vários, principalmente aniversários, com bolos. Não me interpretem mal, também acho que festejar com comida é muito bem pensado! Aliás, comer é capaz de ser das melhores coisas fazemos na vida, logo a seguir ao sexo a três e ao coçar as zonas baixas com uma concha de esparguete. Tenho tudo isso listado, por ordem de preferência.
Mas sempre que faço parte integrante de um aniversário, quer como anfitrião, quer como convidado, pergunto-me o porquê de se estar a festejar com um bolo e não, por exemplo, com filetes de peixe. Porque é que existe o bolo de aniversário, mas não existe o filete de peixe de aniversário? O que é que o peixe tem a menos que a farinha? Enfim, perguntas que devem fazer a vós próprios.
No geral, e por muito folião que me considere, fico sempre perplexo durante as festas de anos. Há sempre uma pressão inerente a estes eventos de se tentar perceber quem é que é amigo o suficiente para receber convite, e quem não é. Para além disso, fica-se sempre com a impressão de que estamos a manter aquelas pessoas de grupos tão diferentes em cativeiro, forçando-as a conviver umas com as outras. E no fim, para acabar de embrulhar todo este presente de pressão psicológica e social, ainda temos que os alimentar com um tipo de comida que não é, de todo, a mais recomendada. No fundo, ser convidado para um aniversário é como ganhar um passe grátis para visitar o zoológico, mas do lado de dentro das jaulas.
E nem me vou esticar em relação ao assunto das velas, que teríamos assunto para mais três textos... Desde o acto de se acender um objecto pirotécnico até ter que o morder para se pedir um desejo, existe nos aniversários todo um código de conduta bastante pouco seguro, que faz com que fazer anos seja um pouco como arriscar a vida. De facto, quando fazemos anos esticamos um bocado a corda logo desde o início, para ver se aquele ano vai mesmo ser o último. Aliás, o desejo que costumo pedir enquanto mordo as velas é o de não ser queimado vivo no meu próprio aniversário, enquanto os meus convidados comem farinha embutida em doses industriais de açúcar e cantam uma música alusiva à minha longevidade.
Pronto, por agora é tudo. Obrigado pela atenção, e parabéns a você!

Abreijo.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Incógnito de nascença.

Uma coisa que me tem vindo a preocupar cada vez mais é a eventualidade de vir a ter filhos. Não me preocupo tanto com o acto causal em si, porque essa área eu até domino relativamente bem. Aliás, todas as minhas parceiras sexuais até hoje elogiaram a minha capacidade argumentativa e deram-me nota vinte em criatividade. Preocupo-me mais, isso sim, com o tipo de criatura que vai ser expelida pelas zonas baixas da progenitora.
É que os nossos filhos são aquelas pessoas com as quais vamos ter que lidar durante o resto das nossas vidas, goste-se ou não. A menos que os deixemos ao lado do vidrão logo à saída do hospital, ou que eles nos coloquem no lixo indiferenciado quando chegada a velhice, os nossos filhos serão da nossa responsabilidade durante a vida toda. Se fomos nós que os colocamos no Mundo, já agora mais vale acatar com as consequências.
O que mais me inquieta é que fazer um filho não é, por exemplo, como fazer amigos: Os amigos nós podemos escolher, basta beber um copo juntos e partilhar um pires de tremoços para ter a certeza; a amizade dá-se quando conhecemos superficialmente alguém e escolhemos se queremos ou não lidar com essa pessoa mais a fundo. Já no caso dos filhos, não somos nós que escolhemos. Muitas das vezes, quem escolhe por nós até é o copo e o pires de tremoços, ambos em quantidade suficiente para despacharmos o serviço com a primeira pessoa do sexo oposto que nos aparecer à frente. E como não somos nós a escolher os filhos que nos calham, temos de nos sujeitar ao que nos sai na rifa! Há também quem os trate como uma colecção de cromos, e abra vários pacotes de três ou quatro unidades até encontrar uma que ainda não lhe tenha saído. Mas, para isso, mais vale fazer colecção de carros clássicos, que é capaz de ficar mais em conta.
É que o raio dos miúdos aparecem literalmente do nada, a meia-viagem da nossa já bastante trabalhada e planeada vida, e instalam-se ali no centro, sem sequer marcar reserva ou ter o cuidado de ligar de antevéspera para avisar. O primeiríssimo alerta que nos dão em relação à sua futura presença no cerne das nossas vidas é quando batem à porta do estômago da progenitora causando-lhe náuseas e vómitos. É desta forma deplorável que recebemos uma notícia de tamanho calibre, mas ninguém parece importar-se. Seria como se no fim de uma entrevista de emprego soubéssemos que fomos contratados devido ao facto do empregador nos ter enviado pelo correio uma marmita com os restos regurgitados do seu jantar.
Para além disso, aceitamos também que outro ser humano entre tão facilmente dentro na nossa companheira, quando nós próprios andamos em algum período das nossas vidas a investir uma carrada de tempo e de dinheiro só para conseguir galá-la. Há algo de profundamente injusto nisto.
Os nossos filhos podem vir a ser uns cretinos e uns completos estúpidos quando crescerem, mas a verdade é que vamos ter que os aturar. Por isso é que, conhecendo-me como conheço, tenho receio de vir a descobrir como vão ser os meus filhos...
Vale-me o facto de, com a vida que levo, não os vir a conhecer tão cedo.

Abreijo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Encarnar na escrita.

Anos noventa.
Pronto, voltamos à minha infância. Fiquei bastante nostálgico, agora... Vêem aquele rapaz franzino ali ao fundo, a escrevinhar numa folha com uma caneta vermelha? Aquele sou eu. E porquê uma caneta vermelha, questionam-se as bonitas pessoas que estão a ler isto? Porque estou, no fundo, a tentar ser rebelde.
Nunca consegui ser verdadeiramente rebelde. Por muito que tentasse, ficava sempre aquém das expectativas. Os meus pais bem que me compravam skates e tentavam convencer-me a fazer beatbox, mas o máximo que consegui fazer com essas duas coisas foi molhar o chão com cuspo e despistar o veículo contra a parede do pavilhão da escola. De certa forma, acabou por ser o meu mais proeminente acto de rebeldia, porque a pintura branca daquela parede em particular nunca mais foi a mesma. Tomem lá!
Por isso, virei-me para as canetas vermelhas. Ou encarnadas. Todas as pessoas que tiveram o privilégio de ter canetas para escrever durante a infância tentaram, uma vez por outra, a sua sorte com a de cor vermelha. E percebe-se, porque, tal como os toiros, também nós os humanos nos sentimos atraídos por cores fortes e vibrantes. Aliás, aos mais cornudos até lhes dá para marrar, quer sejam toiros ou humanos.
Só que nunca nos deixaram escrever a vermelho! Esta é a triste realidade. Escrever a vermelho é, para os educadores, algo semelhante a desenhar na folha um pénis 3D tão pujante que é capaz de lhes vazar uma vista se olharem para ele de relance. Já os mesmos professores podem escrever a vermelho à vontade, porque por alguma razão os pénis deles não são assim tão nocivos para o bem-estar óptico dos seus alunos. Sim, esta é capaz de ser a frase mais estranha que já escrevi...
Ter uma caneta vermelha é como ter um carro desportivo: Só lhe damos uso lá de vez em quando, para dar uma voltinha e mostrar a toda a gente, mas nunca para viagens muito longas. Para isso, existem os carros mais baratinhos e menos dispendiosos, que no caso das canetas se traduzirão, provavelmente, na cor azul. A caneta azul é a mais banal de todas as canetas. É uma espécie de corta-unhas da escrita; é o piaçaba da sanita literária. Todos têm um em casa, e a família inteira usa o mesmo.
No fundo, eu até percebo o porquê de todo este desdém em relação à caneta vermelha. Durante anos, e ainda nos dias de hoje, tem-se vindo a associar a escrita a vermelho com algumas coisas menos positivas, como a iminência do perigo ou aquela prática comum de se escrever recadinhos com sangue. Não que o sangue em si seja uma coisa pouco positiva, porque a mim até me dá um certo jeito. Mas quando as pessoas se põem a escrever com ele nas paredes, acabam por transformá-lo em algo macabro e bastante difícil de limpar. Por causa disso, jurei a mim próprio nunca mais brincar com tampões usados nas casas-de-banho públicas. Agora deixo sempre o meu número de telemóvel em post-it's.
É altura de acabar com este estigma social! Escrever a vermelho não é sinónimo de desrespeito para com o leitor, é apenas um sinal de que ainda nos damos ao trabalho de escrever à mão. Nos dias que correm, isso até é bastante positivo! Vamos lá começar a dar uso às canetas vermelhas, porque tenho uma catrefada delas lá em casa ainda desde os tempos da escola e não sei como lhes dar vazão.

Abreijo.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Rabiscadores compulsivos.

Já me acusaram várias vezes de ser um desmancha prazeres, e de nunca gostar de nada. O que se trata de uma escandalosa mentira, porque eu até sou fã de muitas coisas. Ouviste, mãe?! Pára lá com isso!
É verdade, sou um fã. E sou fã de várias coisas importantes, mas também de coisas estúpidas. Algumas são bastante úteis, outras nem lembram ao diabo. Senão, vejam: Por um lado, sou fã de seios; por outro, também sou fã daquela situação caricata em que um homem passa metade da noite a tentar libertar os seios da senhora do jugo opressor do seu sutiã. É uma causa muito nobre, nobríssima, e o elevado nível de dificuldade até lhe confere alguma piada. Talvez elas até façam de propósito para passarem um bom bocado, quem sabe...
Mas se há coisa da qual nunca hei-de ser fã, é de quem é fã em demasia. E quando é que uma pessoa chega a ser fã em demasia, perguntam vocês? Para mim, é quando começam a pedir autógrafos. Antes de evidenciar tudo o que há de mal com os autógrafos, vamos, primeiro, tentar dissecá-los... Ora, o que é, na verdade, um autógrafo? Um autógrafo não passa de um rabisco escrevinhado num papel que não é do artista, e feito com uma caneta que também não lhe pertence. Ou seja, é o próprio fã que lhe fornece o papel e caneta, e tudo o que o artista tem que fazer é dar um bocadinho ao pulso. Isto não é recordação que se apresente, meus caros, não se vendam por tão pouco... Quanto muito, a recordação que têm na mão é da Staples, que foi quem vos forneceu o material.
Aliás, o máximo de valor que podem retirar de um autógrafo é o facto de o artista ter tocado na vossa própria caneta, e não o raio de um papel com desenhos cavernícolas feitos à pressa. Ou, porventura, se ele vos tiver assinado os seios. Sim, eu sei que já aqui falei em seios... Mas, como toda a gente sabe, seios nunca são demais. Sejam mulheres ou sejam homens, podem sempre orgulhar-se do facto de um vosso herói qualquer vos ter (quase) tocado nas mamas. Uma coisa é ficarem contentes por vos terem tocado nas mamas, outra é ficarem contentes porque vos tocaram num papel!
A mim nunca me apanharão numa fila durante horas sem fim, apenas para me assinarem um papel. Se quisesse ter isso na minha vida, ia a uma repartição de finanças. Só consideraria essa hipótese caso a assinatura desse tal ídolo me desse algum privilégio, como o acesso a uma conta bancária recheada ou um aumento do abono de família. Mas se é só para mostrar aos outros que tenho um papel assinado, prefiro ver o espectáculo e vir-me logo embora.
Até porque, no outro dia, quando vocês chegarem triunfalmente à escola com um papel autografado na mão e o mostrarem arrogantemente aos vossos amigos, tudo o que eles vão conseguir responder é: "Boa... Olha, já topaste o rabo da stora de Matemática?"
Porque, no fundo, ninguém quer saber.

Abreijo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pequenos seres diminutos.

Este textinho que estou a escrever é especialmente dedicado ao leitor que pariu recentemente um filho, ou que pelo menos contribuiu para o acto de parição. E digo "textinho" para ir ao encontro do vosso próprio linguajar, porque eu gosto de me adaptar ao ambiente em que me encontro. É por isso que, todos os dias, como um bom punhado de milho seco e choco um ou dois ovos, dependendo da intensidade do calor. Para quem não percebeu a piada, vivo num galinheiro.
Que os bebés são pequenos, pelo menos quando comparados com as crias de uma mãe mamute (leiam esta última parte em voz alta), por exemplo, já toda a gente sabe. Mas que os pais ficam quase do tamanho dos bebés, pelo menos em termos de mentalidade, é que já não está ao alcance da compreensão de toda a gente. O objectivo dos babados progenitores é, geralmente, simplificar, mas a maior parte das vezes o tiro sai-lhes pela culatra. Um pai que me diga que o seu filho tem dezasseis semanas, obriga-me a ter que calcular que dezasseis semanas são quatro meses. E eu nem gosto de calcular, de todo, principalmente quando ambos sabemos que há uma outra forma mais fácil de o cavalheiro se fazer entender. Chegamos ao ridículo de ter pais que se gabam de o seu rebento ter vinte e quatro meses, quando podia mais facilmente dizer que tem dois anos! E isto para quê? Para perpetuar a ideia de que o pequeno ainda é um jovem, e que está ali para as curvas? Isso já nós sabemos, que raio, é um bebé! Não estarão a reflectir nos vossos filhos as vossas próprias frustrações cronológicas, seus cotas?
Outra coisa: Se eu tomo banho embora poucas vezes, é certo , porque é que os vossos filhos tomam banhinho? Se eu bebo leite e como fruta, porque é que as vossas miniaturas de gente têm que beber leitinho e comer frutinha? Não temos todos os mesmos direitos? Então para quê todos estes diminutivos verbais? A mim não me deixam comer papinhas, porque pelos vistos já sou muito grande e só posso comer papas. Mas onde é que isso está escrito?! Também a minha indumentária passou de roupinha para roupa, porventura para acompanhar o meu crescimento. Em relação ao vosso pirralho, vocês têm mil cuidados com a cabecinha; já eu, posso rachar a cabeça num tronco de lenha especialmente rijo que ninguém se importa, só me perguntam se cortei o suficiente para, pelo menos, refrescar a lareira.
Não é justa, esta diferença de tratamentos. E nem sequer é coesa, diga-se de passagem... Porque, vejamos: Um copinho pode ser um copo, mas uma palhinha não é uma palha. Ninguém manda o filho ir buscar palha, nos dias de hoje. Antigamente sim, mas era para alimentar os animais, e não os filhos. Uma palhinha será sempre uma palhinha, independentemente da idade do usuário. Avós e netos podem partilhar palhinhas, embora não seja sanitário; e talvez seja um bocado estranho, até... Mas o certo é que podem, independentemente do facto de um ter rugas por ainda ter peles para encher e de o outro ter rugas por já ter as peles a descair.
Fiquem com esta imagem. E que não me caia um "dentinho", com a graçola.

Abreijo.

terça-feira, 11 de março de 2014

Guinchos e cantigas.

Um dia imaginei a minha vida sem música, e não gostei. Os meus duches tornar-se-iam aborrecidos e, muito provavelmente, teria finalmente que comprar uma daquelas esponjas feitas numa espécie de rede de pesca abichanada para me entreter, e para apimentar a minha relação com a água doce. Também conseguiria chegar mais facilmente às zonas difíceis, o que é sempre positivo. As minhas costas, por exemplo, já não são bem esfregadas desde que deixaram de me dar banho. Já tentei convencer a minha mãe a dar-lhes uma boa ensaboadela, em honra dos bons velhos tempos, mas hoje em dia ela já só acha estranho, e com alguma razão.
Por isso, sim, eu gosto bastante de música! E até sou bastante receptível a novas sonoridades, sejam-me elas apresentadas pelos meus pares ou pelos artistas extravagantes das estações de metro. No entanto, torna-se difícil ser adepto de novas sonoridades quando a própria pessoa que nos tenta apresentar a sonoridade não nos deixa sê-lo. Falo, pois claro, daqueles indivíduos que tentam impingir determinadas músicas aos outros, mas que se põem a cantar ao mesmo tempo que o artista.
Gente, eu percebo o vosso entusiasmo, juro que percebo! Mas se não se calarem, estão a auto-boicotar-se. Quando me aconselham a ouvir determinada música e depois se põem a cantarolar os vocais ao mesmo tempo, eu não consigo apreciar devidamente a música. E eu até sou uma pessoa que gosta de apreciar devidamente coisas, desde rabos a espectáculos de dança contemporânea. Depois, temos ainda as pessoas que, não satisfeitas com a nobre arte de cantar por cima dos coros das músicas, ainda trauteiam o instrumental, e guincham os solos de guitarra. E, no fim, perguntam: "É fixe, não é?"; ao que eu respondo: "Não faço ideia, só vim aqui para pedir uma xícara de açúcar à tua mulher. Ela está?"
Conheço bem o entusiasmo que a música provoca, embora dos milhares de instrumentos que existem no Mundo, eu só saiba tocar um. E não, não é o meu pénis, antes que comecem com piadas. Mas não se conseguem conter durante uns míseros quatro minutos (ou sete, se o artista tiver um fraco poder de síntese), para eu conseguir ouvir o raio da música até ao fim? É que a música até pode ser especialmente bonita, mas com alguém a guinchar-ma ao ouvido ao mesmo tempo dá logo para desgostar.
Como se sentiriam se, por exemplo, eu vos recomendasse um restaurante e passasse uma refeição inteira a trincar a vossa comida e a dizer: "É bom, não é?", para depois no fim não chegarem a comer nada? Ou se vos apresentasse uma amiga toda boa, por já ter pena de vos ver há tanto tempo solteiros e com as costas por esfregar, e passasse o encontro todo a apalpá-la e a demonstrar o quão talentosa ela é na arte do felácio?
Se uma música for assim tão boa como dizem, decerto que as suas qualidades falarão por si. Não é preciso estarem a gritar-me a letra toda por cima do ombro, independentemente do número de cartazes com a cara do artista que usaram para forrar as paredes do vosso quarto.

Abreijo.

sábado, 8 de março de 2014

Liso e complicado.

Bem sei que me imaginam como um velho sabujo do mar, com a barba esbranquiçada pelo avançar dos anos e por resquícios de ressalga de outros tempos. Mas tal como todos os sabujos, a minha sabujice, por muito vasta que seja, não consegue alcançar todos os campos do conhecimento. Há, em mim, um delineamento de limites involuntário, mas necessário, que me impede de ter uma compreensão enciclopédica acerca de, por exemplo, atributos de champôs.
Isto tudo para dizer que não me entendo com as embalagens dos champôs, pronto. Ou melhor, até já me consigo entender mais ou menos, mas até há bem pouco tempo não conseguia. Na minha mente algo simples e ingénua de outros tempos dois ou três meses, aproximadamente eu pensava que, por exemplo, um champô para cabelos "lisos e sedosos" só servia a quem já tinha cabelos lisos e sedosos, e gostaria de os manter. No entanto, ao que parece, este tipo de champôs destina-se mais a quem não tem cabelos que se enquadram nesse formato, mas gostaria de vir a ter! E foi com esta súbita realização que o Mundo passou a fazer muito mais sentido, não só o mundo da centrifugação capilar com recurso a produtos químicos vendidos em frascos, mas o Mundo em geral.
Realmente, e agora que reflicto bem sobre este sistema de caracterização de champôs, faz mais sentido que assim seja. Senão, vejamos: Se só as pessoas com cabelo "saudável e brilhante" comprassem champôs para cabelos saudáveis e brilhantes, então só se vendiam um ou dois frascos a cada três meses. Pelo menos a julgar pela minha rua, que é composta maioritariamente por cabeleiras de meia-idade e já com poucas tenções de tentar impressionar alguém. Assim, teríamos uma indústria tremendamente fragmentada, onde cada pessoa apenas adquiria o champô que mais se adequasse ao seu tipo de cabelo.
Mas, esperem... Então para quê os champôs para cabelos "oleosos", "secos" ou "espigados"? Serão para quem não tem e gostaria de ter vá-se lá saber porquê , ou para quem já tem cabelos oleosos, secos ou espigados? Vêem, estou confuso outra vez! E com isto lá vão três meses de intensa meditação pelo ralo abaixo; e alguns cabelos, porque quando eu medito intensamente vou-lhes dando puxões.
Torna-se óbvio, portanto, que a indústria dos champôs anda repleta de mentiras. Uma vez, por exemplo, experimentei um champô "caracóis perfeitos" e meu cabelo continuou liso, sem sequer um canudinho se formar. Logo aqui se vê o nível de trapaça e de engano a que estamos sujeitos. Num outro episódio, quando era pequeno, fiquei a dormir em casa de um primo meu. À noite, quando fui tomar duche, vi que o meu tio, solteiro, tinha comprado um champô contra o "excesso de oleosidade". Ora, o meu tio é careca... Quanta oleosidade terá ele, realmente, para justificar a compra de um champô com aquelas características? E se ele usasse um champô contra a queda de cabelo, voltaria a ser cabeludo?
Um dos poucos champôs que é claro e conciso ao ditar o propósito da sua missão é o "anti-caspa". Com um champô anti-caspa, sabemos sempre o que esperar: Estará ali para devolver ao cabelo o seu brilho natural? Não, com certeza. Estará ali para dar mais volume e vida ao seu cabelo, seja lá o que isso significa? Claro que não, ora! O champô anti-caspa está ali, muito simplesmente, para dar um grande chuto no minúsculo rabo da caspa e atirá-la borda fora. Ponto.
E, desde que faça bem o seu trabalho, por mim está óptimo.

Abreijo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O bom calígrafo.

Vocês não sabem a sorte que têm em conseguir ler o que escrevo. Não em termos de conteúdo, porque eu não digo coisas assim tão interessantes, mas porque isto está escrito em computador. Sim, porque se fosse escrito à mão, provavelmente já teriam desistido de me tentar compreender. E eu estaria a chorar, por vos ver ir embora desiludidos e tristonhos. Sabem, é que a minha caligrafia não é das melhores, e... O problema é vosso! Estavam mesmo à espera que eu admitisse culpa em relação a algo? Ha!
Desde os tempos da escola que não percebo porque razão gozam com a minha caligrafia. Quer dizer, percebo, mas não aceito. Sim, eu sei que tenho uma caligrafia horrível e que há putos da primária que conseguem escrever o meu nome com mais floreado do que eu. Sim, olhar para um caderno meu é como olhar para um outro caderno normal onde se deu um terramoto e as letras se desfiguraram todas. Mas a culpa não é minha, não senhor! Porquê? Primeiro, porque este texto é meu e eu faço o que quiser com ele. Segundo, porque foi assim que me ensinaram a escrever, em miúdo. E eu, como bom aluno que sou, ainda hoje cumpro.
Assim, e sendo ponto assente que a culpa não me pertence, há que atribuir responsabilidades. E existem duas hipóteses: Ou a culpa é vossa, no geral, ou é dos professores em particular. Vossa porque, na verdade, vocês são uns aldrabões. Eu fiz tudo bem, aprendi a escrever de uma determinada forma e hei-de mantê-la até ao fim! Já vocês, adulteraram completamente a vossa caligrafia simplesmente por questões de estética; para ficar "mais bonita", ou mais perceptível. Cambada de fúteis!
A outra hipótese, da culpa ser dos professores, implica que tenham sido eles a induzir-me em erro. Neste cenário sim, é remotamente possível que eu esteja errado. Mas só porque foram os professores a ensinar-me a escrever assim, a desenhar as letras bastante agarradas e seguidas umas às outras como um comboio prestes a descarrilar na iminência de um encontro com uma nova vírgula.
E a mesma explicação serve para os meus dotes, ou falta deles, no campo do desenho! Por alguma razão eu ainda desenho como um miúdo da primária. É porque, na altura em que me ensinaram, EU ERA um miúdo da primária. Foi assim que aprendi, e é assim que continuarei! E o que é a escrita senão uma sequência de vários e pequenos desenhos aos quais damos o nome de letras? (Fui profundo, não fui?)
É simples, portanto: Se ainda desenho como desenhava quando era criança, também tenho que escrever como escrevia quando era criança. Numa sociedade que tanto preza as relíquias e o Clássico, é incrível que ainda não me tenham contactado para assinar contrato com museus ou exposições de arte antiga. Só na assinatura do contrato tinham logo ali uma obra de arte.
Enfim, é o país que temos.

Abreijo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Que raio.

Respondam rápido, qual o super-poder que mais gostariam de ter? Se responderam "conseguir dobrar lençóis como a minha mãe", então parabéns, eu também. Mas pensem lá mais um bocadinho a fundo naquele tipo de super-poderes que vemos nos filmes, e não nas novelas sobre donas de casa repletas de angústia e de ilusões perante a vida.
Já pensaram? Boa. Aposto que uma boa parte de vós escolheu ter visão raio-x. E é justamente com essa parte de vós que quero falar. Os restantes podem ir treinando com os lençóis da avó, que são mais rendados e, portanto, mais difíceis de dobrar. De entre das pessoas que escolheram ter visão raio-x, dirijo-me principalmente àquelas que pretendem, com isso, ver exclusivamente através da roupa das pessoas. Ou seja, dirijo-me aos tarados. Digo tarados, e não taradas, por razões óbvias.
Agora que já defini o restrito público-alvo ao qual me dirijo, e sendo que se trata de uma comunidade predominantemente masculina, pergunto-vos: De zero a dez, vocês são bastante broncos, não são? Porque sim, é verdade que o raio-x dá para ver através da roupa... Mas também dá para ver através da pele, e das paredes intestinais! Não sei que ideia fazem do conceito de raio-x, mas não é certamente a correcta. Porque a visão raio-x não se fica só pela roupa, não ultrapassa a nossa indumentária e diz, toda satisfeita: "Pronto, aqui está bom, não vamos avançar mais." Meus caros, a visão raio-x atravessa praticamente tudo no corpo de um indivíduo, a única coisa que conseguimos distinguir claramente são os ossos. Para os cães sim, a visão raio-x é bastante sensual e apelativa... Eles olham para o raio-x do nosso fémur e começam logo a salivar. Mas para os humanos, nem por isso. A não ser para a minha avó que, para além de ter lençóis excelentes para dobrar, também gosta de roer os ossos depois de comer a carne.
Ter visão raio-x não nos dá o poder de conseguirmos escolher livremente a profundidade do que vemos. Depois de começar, temos que cumprir até ao fim! É como comer um pires de tremoços, mas com menos classe.
A única forma de se conseguir apreciar o corpo de alguém com visão raio-x é se essa pessoa tiver uma pele de chumbo. Aí, o raio-x já não consegue penetrar e conseguimos apreciar-lhe devidamente as curvaturas. Mas, sinceramente, se alguém tiver uma pele de chumbo, para quê usar roupa, de todo? Frio não passa, e dificilmente alguém se atreveria a meter com essa pessoa, com medo de levar com um punho de elevada massa atómica na cara.
Mas se alguém um dia conseguir aperfeiçoar a tecnologia do raio-x a ponto de este se limitar a atravessar só as indumentárias passando, portanto, essa pessoa a ser designada de mega-taradão , existirão também soluções para queira esconder as partes mais delicadas do seu corpo: Usar roupa interior de chumbo. Se é chato? É. Se é pesado? É, claro. Se dá muita comichão? Dá, certamente. Mas só assim se consegue impedir que o Mundo se torne num clube de strip gigante, onde ninguém precisa de se despir para mostrar as suas partes privadas.
Por enquanto estamos safos, porque os tarados de hoje em dia ainda estão entretidos com a pornografia na Internet. O máximo de curvas que nos podem apreciar, por enquanto, são as das cáries tapadas com chumbo.
E eu, pessoalmente, não tenho problema nenhum com o facto de me toparem os dentes.

Abreijo.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Calendarização precoce.

O texto que se segue pode conter linguagem ou cenas (mentais) susceptíveis de ferir a sensibilidade dos leitores.
Seus maricas!

Estou deveras desiludido, e desta vez é mesmo comigo. Sim, decidi dar-vos descanso e garantir-vos alguma paz de espírito, ao saberem que estão safos do meu implacável julgamento. Aproveitem, porque não vai durar muito tempo... Ainda temos umas continhas a acertar.
Na verdade, não estou desiludido com o eu actual, mas com o eu antigo. O eu antigo era um preguiçoso, um sacana que só queria folia e fugia sempre às responsabilidades. O eu actual ainda é um bocado assim, mas devido à idade já lhe vai ficando mal. E é por isso que o eu actual, hoje em dia (lá está), olha para trás e arrepende-se de muita coisa que não fez.
Podia, por exemplo, ter tirado maior proveito da minha anterior pequenez e "inocência" para apalpar mais uns rabos, mirar uma variedade alucinante de seios ou, até, roubar gelados aos outros meninos sem me acusarem de bullying, ou de gulodice. Mas, mais do que tudo isso, hoje em dia arrependo-me profundamente de não ter começado, desde cedo, o meu próprio calendário de masturbação. Sim, leram bem e não têm nada no olho: Um calendário de masturbação.
"E para que serve um calendário de masturbação?", perguntam vocês levando a mão à boca, claramente horrorizados. E eu pergunto "Hein?", porque com a mão na boca não vos consigo entender. E vocês repetem, já sem a mão. E eu respondo, porque sou fixe: Ora, um calendário de masturbação é uma ferramenta bastante útil para uma pessoa conseguir perceber em quais os dias do ano ainda não se masturbou. Atenção que, quando digo útil, não falo em termos de serviço público. É apenas útil para a pessoa em questão, porque trata-se de uma curiosidade pessoal.
No fundo, é algo que até pode ser aproveitado como tema de conversa num qualquer evento social mais mortiço: "Olha lá, já só me falta masturbar em dois dias do ano para completar o meu calendário: É no dia 13 de Abril, porque esse número dá-me sempre calafrios, e no dia 25 de Dezembro, porque no Natal junta-se a família toda e é lixado um gajo arranjar tempo para estar sozinho." De seguida, o seu interlocutor contará a sua própria experiência em termos de calendarização do onanismo e a partir daí, quem sabe, poder-se-á até formar uma bela e profunda amizade. Bastante profunda.
É uma espécie de troca de cromos raros, de uma caderneta de 365 (ou 366). No caso dos anos bissextos, ficaria desbloqueado o cromo 29 de Fevereiro, que só seria disponibilizado para masturbação de quatro em quatro anos. E quando alguém completasse a caderneta, vulgo calendário, ganhava uma pequena taça do respectivo órgão sexual todo assado, banhado a ouro.
Por tudo isto, que já não é pouco, gostaria de entrar em contacto com o meu antigo eu, aquele miúdo curioso e reguila que eventualmente descobriu que o penduricalho que tinha na zona central do corpo não servia apenas para enfeite, ou para disparar urina fazendo barulhos de raios laser. Eu sei, nem perguntem...
Portanto, esta mensagem é para todos os miúdos em início de carreira onanística que estiverem a ler isto, o que também é sinónimo de terem pais a roçar o negligente: Vão anotando as datas em que se masturbam, porque quando chegarem à minha idade, e se tiverem um problema mental tão grave como o meu, vão ter pena de não saber que dias do ano ainda vos faltam.

Abreijo.