segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sentidos cruzados.

Vamos lá ver se nos entendemos de uma vez por todas, que já estou farto de piadas e insinuações de mau gosto: Eu cruzo as minhas pernas como bem me apetecer! Ponto assente. Posto isto, vamos analisar a fundo esta questão. Se não quiserem analisar não analisem, eu não me importo de analisar sozinho. Encostem-se só no sofá e apreciem tamanha erudição analítica.
A igualdade entre géneros tem dois sentidos, um para cada género. Está giro, e assim ninguém fica de fora. Significa isto que tanto um homem como uma mulher têm a possibilidade de conduzir um carro, embora não devam os dois conduzir o mesmo carro ao mesmo tempo. É chato para os transeuntes. Mais, se um homem der um murro numa mulher ela tem todo o direito de retaliar com um pontapé na zona Sul do agressor. E vice-versa, apesar da zona Sul das senhoras ser um bocado mais clivada. Não, não sou a favor da ideia de que os homens devem comer e calar. Para isso já basta ter que acompanhá-las ao cinema.
É justamente esta igualdade de géneros que muita gente quer ver deturpada, moldada para os seus propósitos pessoais e egoístas. Não sou machista nem feminista, não sou pela superioridade do pénis nem pela imposição da vagina. Sou apenas um pénis entre muitos outros. Frase estranha, mas verdadeira. Daí que não concorde com a actual imposição da sociedade acerca do cruzar de pernas.
Algures na história da humanidade houve um ser iluminado, e relativamente aventureiro na zona dos membros inferiores, que se lembrou de pôr as suas próprias pernas uma por cima da outra numa posição relativamente estranha. E descansou. No fundo, é isto que o traçar de pernas faz: Permite-nos descansá-las. Ora, eu não consigo descansar as pernas quando me começam a encher os ouvidos com normas e regras justamente de como descansar as pernas. Algo que devia ser relaxante, a mim deixa-me perplexo. Logo a mim, que não aprecio nada a perplexidade.
Então a história é a seguinte, existem duas categorias de cruzamento de pernas. Que eu tenha conhecimento. Num Mundo ideal, qualquer uma destas categorias poderia ser adoptada por qualquer pessoa, independentemente de género, raça, credo ou tamanho de sapato. Mas na sociedade burocrática e normativa em que vivemos as pessoas insistem em atribuir a cada género um cruzamento de pernas distinto. Assim sendo, um homem nunca deverá cruzar as pernas de maneira a que as partes interiores das coxas se encontrem, ao passo que uma mulher não deve nunca cruzar as pernas de maneira a que uma delas fique a fazer ponte sobre a outra. E esta ideia até poderia fazer sentido no caso de todos nós sermos pessoas com fraco talento para a arrumação. Mas não somos. Alguns de nós, eu incluído, ainda conseguimos arrumar um pénis entre as nossas próprias pernas, que diabo! Mais uma vez: Frase estranha, mas verdadeira.
Da mesma forma que me criticam quando cruzo as pernas "coxa com coxa", também eu poderia criticar os homens que as cruzam "em ponte" e afirmar que só o fazem para se exibir. Mas não o faço, porque até sou um rapaz porreiro e com alguma classe latente. Escusam portanto de zombar, porque não se trata de uma questão de ter mais ou menos volume lá em baixo. Trata-se, isso sim, de saber manusear o material. E isso só um homem a sério consegue.
Frases estranhas, mas verdadeiras.


Abreijo.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Candidíases familiares.

O meu primo começou a namorar e eu desconfiei do meu primo. O meu primo namorou-se de novo e, mesmo assim, continuei a desconfiar do meu primo. Até que o meu primo se casou, e eu não deixei de desconfiar do meu primo. Apesar de tudo isto se ter passado na companhia de mulheres, ainda hoje desconfio do meu primo. E porquê? Porque o meu primo nasceu de cesariana.
Sim, desconfio que o meu primo seja homossexual. E antes que comecem com coisas: Não, não sou de todo contra. Encaro a homossexualidade com a mesma naturalidade com que encaro uma tigela de sopa num dia friorento e invernoso. E encaro o meu primo com a mesma naturalidade com que se encara um primo. Pronto. Mas não consigo sacudir a ideia de que ele é homossexual. E não consigo também sacudir a realização do quanto é arriscado utilizar o verbo "sacudir" num texto que se refere à sexualidade, seja ela de que tipo for.
Existem muitas concepções comuns e recorrentes através das quais o meu primo poderia tentar argumentar a favor do nascimento por cesariana e, por acréscimo, a favor da sua masculinidade: Ou porque estava de lado na altura do parto, ou porque tinha o cordão umbilical perigosamente enlaçado no pescoço, ou porque estava a gostar do quentinho da placenta e não queria sair, ou mesmo porque a progenitora tinha tido o desejo de comer uma consola durante os primeiros tempos de gravidez e ele queria chegar ao último nível do jogo antes de sair para o Mundo.
Mas não me venham com explicações vãs, não é de todo comum que um heterossexual rejeite uma vagina desde logo à nascença. O facto de o meu primo ter visto uma vagina e pensado: "Nah, vou à volta que é melhor!" nunca me caiu bem. É que não havia mais nenhuma saída para além daquela. E convenientemente colocada mesmo ali ao lado! Seria o mesmo que alguém recusar-se a sair de casa pela porta da sala e abrir uma nova janela na cozinha. Não faz nenhum sentido do ponto de vista arquitectural.
Acreditem que já tentei várias vezes clarificar o caso: Um dia perguntei-lhe directamente se era homossexual enquanto ele jogava râguebi, emborcava uma bebida energética e piscava o olho a uma cheerleader. Ele respondeu-me com um murro na boca. Mas eu não desisti da minha pesquisa, e fui dar com ele depois do jogo nos balneários a chicotear os colegas com uma toalha embebida em suor. O que estava eu a fazer nesses balneários e como tomei conhecimento de que a toalha estava suada já não vos diz respeito.
Um dia hei-de perguntar à minha tia qual o nível de interesse que o meu primo tinha pelas suas mamas quando era pequeno. Mas pergunto quando ele estiver no râguebi, porque tenho medo de levar outro murro na boca. Quer dele, quer do meu tio.

Abreijo.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Reconhecimento espacial.

Sou egocêntrico, admito. Sou egocêntrico, arrogante, presunçoso, descarado, insolente, convencido, altivo e soberbo. E porquê? Porque sou humano. Um pouco menos da cintura para baixo, mas sou.
Partilho a ideia de que a natureza de uma pessoa se define através da forma como retrata os extraterrestres. Pode parecer uma filosofia de vida estranha, e ainda bem, porque se fosse normal não era minha. Mas esta ideia, tal como a generalidade das minhas ideias, não deixa de ter um fundo de verdade. Ora expliquem-me lá, por carta ou como quiserem: Porque é que os seres humanos têm a mania de representar os extraterrestres de acordo com a sua imagem? Ou seja, porque é que, regra geral, os extraterrestres têm que ser bípedes, ter o mesmo número de membros que nós, uma boca para comunicar e um pescoço para apertar?
Até perceberia esta insistência caso fossemos os únicos seres vivos no planeta, mas até a própria diversidade morfológica dos seres terráqueos mostra que um ser vivo pode ter inúmeras formas. De facto, um ser vivo pode ter quatro ou doze patas, cinco ou mais olhos ou nove ou vinte dedos. Também pode ter uma corcunda, pode ter folhagem, pode ser do tamanho de um parafuso ou ter o órgão reprodutor na testa. O que imagino que seja chato quando se tenta ter uma conversa séria com alguém…
Mas não, claro que nós não conseguimos aceitar isso! O ser extraterrestre tem que ter sido feito à nossa semelhança, quais deuses do Universo. E talvez o problema resida aí mesmo, talvez a ideia de um ser todo-poderoso nos fazer à sua imagem nos leve a acreditar que também fez os seres de outros planetas de igual modo. Quer isto dizer que tudo o que não for semelhante ao ser humano não é, com certeza, obra dessa entidade. Resta saber, então, quem criou o meu cão Bolinhas. Eu gosto bastante do Bolinhas, mas depois de saber que ele não foi criado pelo todo-poderoso já nem sei como encará-lo. Antes pensava que o facto de ele lamber os testículos fazia parte da ordem normal das coisas, que era vontade divina. Mas agora pergunto-me se ele não o fará apenas por puro lazer, o sacana!
E nem me vou alongar muito sobre a nossa concepção das viaturas extraterrestres: Há alguma razão em particular para estarmos tão certos de que os seres de outros planetas se deslocam em naves com forma de frisbee? Mas somos homens do século XXI ou somos hippies dos anos 70? Será que toda a nossa realidade não passa do fruto da imaginação de um ganzado?
Acredito verdadeiramente que um dia vamos conhecer extraterrestres. E nesse dia, depois de trocarem galhardetes e de partilharem pratos típicos de ambos os planetas, as duas espécies vão chegar a casa e comentar com a sua respectiva família o quão fantástico foi conhecer aqueles seres estranhos e desengonçados, diferentes de tudo o que alguma vez tinham visto.

Abreijo.

domingo, 15 de setembro de 2013

Informalidades.

Antigamente vivia-se sem roupa. Mas justificava-se, porque na altura todos éramos alcatifados, adornados por uma tapeçaria de pêlos que embelezava o nosso corpo e desviava as atenções dos nossos largos e disformes crânios. Para além disso, estávamos bastante quentinhos.
Depois passou-nos, os nossos folículos pilosos abandonaram-nos e passamos a ter que servir-nos dos folículos pilosos das ovelhas para nos taparmos. E dizem vocês: "Folículo piloso és tu, oh palhaço!". Mas isso eu não vos admito! Se me querem chamar pintelho, ao menos usem o vernáculo. Eu até nem tenho nada contra roupa, antes pelo contrário... Só contra cuecas, essas apertam-me um bocado nas zonas baixas. Mas em geral até concordo que tapemos os tecidos orgânicos com que viemos ao Mundo, não só por causa do frio mas também para esconder o nosso entusiasmo pelos tecidos orgânicos dos outros. Mas de todas as indumentárias existentes, nunca hei-de entender o porquê do encanto em amarrar-se um bocado de tecido ao pescoço. Refiro-me, claramente, caro leitor mais vagaroso em matéria de raciocínio, à gravata.
Mais uma vez, não vos quero induzir em erro: Sou bastante fã de um bom fato. De estilo italiano, americano, inglês, roto, remendado, às bolinhas ou virado do avesso, um par de calças e um casaco dão sempre jeito. O problema é quando tenho que acrescentar ao casaco e às calças um nó no pescoço que passa o dia a balançar-me no tronco. E que me aponta para os genitais, como se fosse preciso esclarecer a alguém que eles lá estão!
Há quem diga que a gravata serve para esconder os inestéticos botões das camisas com que o fato se faz acompanhar. Mesmo que tal seja verdade, significa isto que, até hoje, a melhor solução que o ser humano encontrou para tapar simples botões foi um pedaço de tecido a gingar. Estamos a falar da mesma criatura que descobriu como fazer carros andar através de dinossauros mortos, e que até já inventou a Bimby! Agora comparem...
Sabem quem mais costuma usar acessórios ao pescoço? Os cães e os gatos. E vejam o quão domesticados eles são... No fundo, usar gravata é levar demasiado à letra a imagem do escravo trabalhador do século XVIII, com a corda ao pescoço. Ou a do escravo trabalhador endividado do século XXI, também com a corda ao pescoço. A diferença é que enquanto um se quer libertar da corda, o outro pretende fazer uso da corda para se libertar. De vez.
Até perceberia o uso de gravatas em algumas situações excepcionais, como na prática do bondage ou no cultivo da nobre arte do sadomasoquismo... Mas no dia-a-dia, e no próprio local de trabalho? A menos que tenhamos uma colega de secretária também disposta a qualquer tipo de cultivo, penso que não se justifica.

Abreijo.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Detector de metais.

Tal como muitos antes de mim, também eu tenho um sonho. Sonho em um dia encontrar uma boa rapariga (a palavra "boa" é imperativa), arranjar um tecto para viver, que não o tejadilho do carro, e comprar um carro para conduzir. O tejadilho também é facultativo. Pode ser um descapotável, que eu não pio.
Mas mais do que isso, pretendo começar uma vida sem ser constantemente barrado à entrada de um avião. E isto porquê, questionam vocês sem necessidade porque já sabem que eu nunca vos deixaria ficar sem uma explicação. Porque o ser humano, em geral, e os casais, em particular, têm a mania de festejar tudo com anéis.
Ora pensem, mas devagar que temos tempo: Há o anel de namoro, o anel de noivado, a aliança de casamento, o anel das bodas de prata, o anel das bodas de ouro, o anel das bodas de platina e o das bodas de latão com chumbo. Significa isto que quanto mais duradoura a relação, menos conseguimos dobrar as falanges. E eu adoro dobrar falanges... Dobro-as todos os dias, várias vezes ao dia. O problema arterial dos idosos não se deverá, portanto, às artroses nem às artrites, mas sim à quantidade de anéis que o casal açambarcou ao longo da sua vida conjugal. Mas não deixa de ser fofinho: Quanto mais os dedos se retorcerem, mais o casal se ama.
E eu pergunto-me, até porque gosto de dialogar comigo mesmo: Quantas mais ocasiões conjugais poderiam justificar o uso de anéis? Talvez se devesse comprar um anel por cada dia que acordassem ao lado um do outro. Assim era mais fácil descobrir os menos fiéis, seriam aqueles com maior elasticidade nos dedos das mãos. Por usarem menor quantidade de anéis e não só... Os mais fiéis também seriam facilmente identificados. Com tantas jóias de prémio passavam a assemelhar-se a chulos dos anos 80, o que acaba por ir um bocado contra o conceito de fidelidade. Ou rappers dos anos presentes, o que também acaba por ir um bocado contra o conceito de fidelidade. E de bom senso, até. Para além disso, o chocalhar dos metais interfere com os instrumentos de gravação, o que pode vir a ser chato mas, ao mesmo tempo, acaba por dar ritmo à faixa.
Só vejo duas situações em que o uso exagerado de berloques nos dedos possa vir a ser útil: No caso de peregrinações e na eventualidade de avaria na viatura. Aí sim, podemos substituir o colete reflector por uma mão cheia de anéis, desde que tomemos as devidas providências para não encandear os restantes utentes da rodovia. Podemos deixar de lavar as mãos, por exemplo... Ou comprar anéis com três níveis de intensidade, mínimo, médio e máximo. Os anéis de recuo já são mais caros, não se justifica.

Abreijo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Medidas drásticas.

Temos que falar. Tenho andado a adiar esta conversa faz algum tempo, mas cheguei a um ponto em que já não me consigo sentir suficientemente confortável ao pé de vocês. O problema não está em vós, mas em mim. Estou a tentar encontrar-me a mim próprio a nível emocional, porque me perdi um bocadinho naquela rotunda ali atrás e acabei por me meter num beco duvidoso. Não estou a acabar convosco, estou só a tentar dar um tempo para que a nossa relação possa respirar. Até porque é notório que nesta altura das nossas vidas queremos coisas diferentes: Vocês querem medir coisas com os membros, eu nem por isso.
Sim, aquilo que mais me fez arrefecer no que ao nosso relacionamento diz respeito foi esse vosso hábito tão rudimentar e caótico de medição de coisas. Porque, pensemos: Há uma boa razão para se dizer que os homens não se medem aos palmos. E é porque, realmente, medir aos palmos acaba por ser muito relativo. Quem quer medir aos palmos deve primeiro informar-se acerca de que tipo de mão estamos a falar. São as de uma criança ou de um adulto? E se são de adulto, de que idade? Todos sabemos que a certa altura começamos a mirrar, até das mãos. Mais, é mão de homem ou de mulher? Uma coisa é a palma do meu pai, outra é a da minha mãe. São bastante diferentes, acreditem. Já levei com as duas a uma velocidade considerável.
Depois, quando não medem com a mão toda, medem só com os dedos. Uma pessoa de quem se diga que tem dois dedos de testa não se deve andar a armar em fanfarrona só por causa disso. Pura e simplesmente porque isso não quer dizer nada. Mais uma vez: De que tipo de dedos estamos a falar, dos dedos espessos de um camionista de 54 anos ou das garras anoréticas de uma adolescente de 14? Essa adolescente, rói as unhas quando está nervosa ou nem isso consegue ingerir? E como é feita essa medição, com os dedos na horizontal ou na vertical? Se for na vertical, deve haver por aí muita gente com testas assustadoramente grandes. Mais, estaremos a referir-nos aos dois dedos mindinhos ou aos dois indicadores, que também divergem em tamanho e espessura? Até os próprios polegares possuem um sistema de medição só seu, as polegadas. Odeio dedos individualistas...
O facto é que no cerne da questão poderão estar, como quase sempre, os norte-americanos. Não queria criticar em demasia a América, até porque quem o faz não costuma dar-se particularmente bem. Mas o sistema de "pés" ainda hoje teimosamente mantido pelos norte-americanos, quando o resto do Mundo claramente já deixou para trás esse antigo brinquedo, acaba por servir de incentivo para que se continue com este hábito de usar os membros para se fazer medições. Mas como seria de esperar, e mais uma vez, todo este sistema acaba por colapsar perante o minucioso escrutínio que só alguém tão lesado mentalmente como eu tem capacidades de efectuar. Isto porque os pés americanos (o sistema de medição, não o próprio par de pés dos coitados) levantam, mais uma vez, uma série de perguntas: Qual o número do pé em termos de calçado? É um 35 ou um 42? Um deles será claramente maior do que o outro, acabando por não haver rigor na medição. E as unhas, são cortadas e cuidadas regularmente ou são daquelas compridas e amareladas, que chegam a fazer túnel? É que também isso tem influência no tamanho aparente do pé.
Portanto, não chorem por a nossa relação estar, de momento, em suspenso. Tratem apenas de tentar reinserir lentamente no vosso quotidiano o centímetro, o metro, o quilómetro e até mesmo a légua, e pode ser que a nossa linda história não tenha que acabar assim tão precocemente. Façam lá um esforço, pelo amor de nós!

Abreijo.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Professores inacabados.

Que me perdoem os que tive até hoje, mas há uma certa categoria de profissionais que simplesmente não consigo tolerar. Esses profissionais são, como não poderia deixar de ser, os professores. Até porque diz no título, e era mau estar agora a contrariar-me a mim próprio. Eu nunca faria isso! Quer dizer, talvez fizesse... Ou não, não sei.
Mas atenção que não são todos os professores, até porque respeito bastante o enorme esforço de pessoas que têm como função educar bestas como eu. Para além disso, não quero ter os sindicatos à perna. Os professores que eu tenho sérias dificuldades em aceitar como bons profissionais são aqueles mais preguiçosos, que desistem de fazer o seu trabalho a meio. Poderão reconhecer facilmente este tipo de profissionais da educação: São aqueles que obrigam os alunos a acabarem-lhes as palavras. Sim, existe um tipo de professores que acha que o seu dever não é ensinar, mas sim treinar as crianças para uma eventual participação futura em concursos televisivos de adivinhar palavras.
A aula dá-se da seguinte forma: O professor entra e cumprimenta os alunos. Logo aí, já gastou 15% da sua energia. Depois, tira o livro da pasta e indica aos alunos a página do início de matéria. Mais 5% para o galheiro. É então que se começa a mentalizar de que vai ter que se levantar e escrever no quadro. Gasta mais 20% de energia, só de pensar. O acto de levantar-se e realmente escrever no quadro desgastam, respectivamente, 30% e 60% da sua energia. E reparem que já vamos num total de 130%, pelo que se conclui que ou eles se esforçam muito para além das suas forças, ou eu sou mesmo bastante fraquinho a matemática. Ou então fui mal ensinado.
É, portanto, inevitável que, quando chegar a altura de perguntar aos alunos "Como se chama a figura geométrica que desenhei no quadro?", só lhe reste energia para dar a meia-dica: "É um qua..." E pronto, fica a bola no campo dos alunos. E a estes apetece dizer: "QUADRADO! Como você, sua besta!" Mas não dizem, senão têm negativa. A verdade é que, da palavra quadrado, por exemplo, a parte mais difícil é mesmo o "... drado", que ainda exige algum trabalho de língua.
Mas talvez mais incómodo do que isso é o silêncio constrangedor que fica na sala, perante a pergunta meio-respondida do professor. Porque os alunos até podem saber a resposta na totalidade, mas sentem-se a fazer papel de parvos ao ter que completar a frase do professor. Isso não é fixe, nem radical, nem baril! Okay, "stôr"?
Que direito têm, então, estes profissionais de exigir um salário completo? Porque é que não recebem apenas um "salá...", com um valor a metade do normal? Se nem se dão ao trabalho de tentar completar as suas próprias frases, porque razão lhes temos que de dar boas condições de vida, quando lhes podemos proporcionar apenas "... de vida" e deixar-lhes angariar o resto?

Abreijo.

sábado, 13 de julho de 2013

Tecelagem e estética.

Indo muito para além do argumento aceitável acerca da sua complexidade, o ser humano alcança muitas vezes a fronteira da estupidez. E entra à patrão, sem quaisquer controles alfandegários. Sim, eu sei que também sou um ser humano e que, por extensão, serei também estúpido. Mas não me importo porque, no meu caso, é por escolha própria. A vida de estúpido sempre me seduziu, desde pequeno.
Ora, e que tipo de comportamento estranho é que denunciarei desta vez, perguntam vocês nesse vosso tipo de voz anasalada? Ah, sei lá... Talvez aquela mania de colocar bocados rectangulares de tecido no chão para lá roçar os imundos pés, por exemplo! Sim, vamos discutir tapetes. Se têm problemas com isso, podem substituir a leitura deste texto pela ingestão de uma sopinha de leguminosas. É bastante mais saudável.
Há poucas diferenças entre uma casa adornada com imensos tapetes e o meu quarto no final da semana. Em ambos os casos, há muita roupa espalhada pelo chão. Mas, por alguma razão, é perfeitamente aceitável andar em cima de tapetes, enquanto que se puser os pés em cima da camisa que usei ontem para o casamento da minha prima em segundo grau já sou só porco. É que é em segundo grau, só! Se fosse em primeiro, até percebia a indignação.
É que, pensem: O principal propósito dos tapetes, para além da limpeza de pés, é o embelezamento. Alguns servem para voar, mas só no imaginário de alguns árabes mais frequentes no uso de "ervas medicinais". Ou seja, o que se propõe é espalhar roupa pelo chão para a casa ficar mais bonita. É o equivalente a untar propositadamente o corpo com lama, algo que se acontecer involuntariamente é considerado nojento, para embelezar a pele. Não se percebe...
E o mesmo também se aplica a carpetes. A queixa mais comum por parte de pessoas que forram o chão da casa a carpete está relacionada com a dificuldade de limpeza da mesma. A minha queixa em relação a essas pessoas é que ainda estejam presas na primeira metade século XX, porque já ninguém usa carpete. Usar carpete pouco mais é do que agasalhar o chão. Não passa de uma solução rudimentar para abafar os passos quando, a meio da noite, nos apetece ir para a sala de estar ver pornografia da boa. É aí que está a televisão com ecrã maior. E, como todos sabem, o tamanho importa. Quer em relação à pornografia, quer em relação ao ecrã onde a visualizamos.
Para além disso, acho os tapetes de entrada uma abominação em relação à ética e aos bons costumes. O que aquilo implica, basicamente, é que dispensemos algum do dinheiro que nos custou a ganhar para comprar um bocado de tecido onde as nossas visitas possam depositar toda a imundice que trouxeram da rua através dos sapatos. "Olha, queria entrar mas tenho os sapatos cheios de entranhas de javali, que fui hoje à caça." Não faz mal, esfrega aí no tapete que me custou 50€, dinheiro que podia perfeitamente ter servido para alimentar a minha família que está à míngua há quase três meses.
Vou fazer uma experiência: Vou colocar à porta de casa uma t-shirt com "Bem-vindo" estampado. Quero ver quantas pessoas lhe vão esfregar os pés.

Abreijo.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Puro, duro e cru.

Eu chateio-me bastante com as pessoas. É raro elas chatearem-se comigo, o mais comum é ser eu a chatear-me. As pessoas já me ligam pouco.
Uma das minhas chatices costumeiras com pessoas prende-se com a carne. Não a minha nem a delas, mas a carne no geral. Há pessoas que gostam de comer carne praticamente crua. Tão crua que, ao espetar-lhe o garfo, corremos o risco de perfurar um vaso sanguíneo do animal que afinal está só atordoado no prato e que começa a esguichar sangue para todos os cantos da sala. E eu questiono-me acerca das verdadeiras intenções desta gente: Será que o meu colega de trabalho vai comigo a bares apenas para me deixar a marinar em vinha d'alhos? Terá o meu vizinho do lado a intenção de me devorar com os raminhos de salsa que me vem pedir à porta semanalmente? Custa viver assim, na dúvida...
Por alguma razão se descobriu o fogo, caro leitor visado. Não foi só pelo efeito visual, que de facto é bastante belo, mas também para nos certificarmos de que o animal em cima da mesa está realmente morto e já não dá coices. Também para propagar um bom cheiro a chicha pela caverna fria e sem-sabor de outros tempos. Bifes mal passados comiam os homens das cavernas, e mudaram completamente de hábitos depois de um deles, especialmente iluminado, ter descoberto como fazer uma fogueira só com dois pauzinhos! Podemos inquirir-nos acerca do que estaria o indivíduo a fazer roçando dois pauzinhos dentro de uma caverna, mas vou-vos poupar a isso. Afinal, o tema é comida.
É que, agora, o chique é ser-se selvagem. Quando vejo um leão com a boca besuntada de sangue e com um naco de carne bastante rosada sob as patas dianteiras já não penso tratar-se de um animal selvagem: É um gato gourmet. Quando vejo um urso pardo caçar peixes no rio e levá-los directamente à boca, já não o considero um animal perigoso e implacável: É um mestre de culinária, verdadeiramente requintado. E sim, o sushi está também inserido nesta brincadeira! Se quisesse comer peixe cru, virava golfinho e ia fazer truques para o Zoomarine.
Concluimos que ser chefe de culinária acaba por já não ser tão difícil como era antes. Basta apontar para uma vaca e dizer: "Prova, é o meu novo prato. Está bastante mal cozinhado, mas faz parte da magia do prato." Ao que o provador responde: "Mas que prato, se a vaca ainda está no campo a pastar e a afastar moscas com o rabo?" Nem é preciso ter nenhum tipo de cuidado especial com o empratamento, basta que a vaca não esteja coberta do seu próprio estrume. O que, com uma boa mangueirada estratégica, é relativamente fácil de conseguir.
Assim também eu sou cozinheiro!

Abreijo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Colecção pequeno/médio.

Há quem diga que o melhor do Mundo são as crianças. Há quem diga também que o melhor do Mundo é comer um gelado numa esplanada mirando o vasto areal, onde casais desinibidos atiram a precaução ao mar e decidem estragar as suas férias gozando de uma alergia nas zonas genitais devido à areia que se lhes entranha nas partes baixas.
Eu sou mais adepto da segunda hipótese. Até porque a primeira, apesar de não estar errada, está incompleta. Eu também gosto de crianças (e alerto aqui para o simples verbo "gosto" para que não haja confusões), mas há que encarar com seriedade as suas limitações. E nem falo nas suas limitações motoras ou verbais, características da idade. Até acho piada a uma criança que não consiga fazer um quatro com as pernas quando está bêbada. O que mais me aflige nas crianças é o seguinte: Já viram o dinheiro que se gasta ao longo da vida em roupas para criança? São rolos de dinheiro que gastamos com estes pequenos seres. E não falo apenas de um pequeno par de calças ou de uma t-shirt. Gasta-se sempre muito mais do que isso.
Do boné ao sapato, passando pela roupa interior da fase pós-fralda, são tudo roupas que já sabemos que irão deixar de servir num futuro bastante próximo. Até pode ser um bom investimento, caso queiramos ter um número de filhos idêntico ao de uma pequena maternidade. Mas, mesmo assim, duvido muito que o Pedrinho queira vestir a mesma saia que em tempos vestiu a Leonor, que agora é prostituta e já nem saia veste.
Comprar roupa para crianças é como investir em determinada tecnologia, hoje em dia: Já sabemos que dali a uns meses teremos que comprar outra mais recente. A diferença é que, enquanto os aparelhos tecnológicos vão ficando cada vez mais pequenos, a roupa para as crianças tem que ser cada vez maior. E de marca, que os meninos começam eventualmente a tomar-lhe o gosto!
"Qual é a tua solução então, espertinho?!", perguntam vocês com a boca ainda cheia de batatas fritas. Engulam isso, é feio. Visto que a eliminação das próprias crianças seria uma medida demasiado drástica – e, ao que parece, até bastante imoral –, vejo-me na obrigação de propor uma política do desenrasque: Porque não enrolar a criança num lençol e mostrar-lhe desde cedo como viviam os antigos gregos? Ou envolvê-la num cortinado assim mais extravagante e ensinar-lhe os modos de conduta do antigo império otomano? O que eu não faço pela cultura...
É verdade sim senhor, podem sempre dar as roupas aos mais necessitados. Até é um acto nobre. Resta saber se os próprios miúdos necessitados querem realmente vestir a mesma roupa que em tempos vestiu a Leonor prostituta, que trabalha agora lá na esquina e lhes fornece maços de tabaco fanados aos clientes.
Em último caso, parem de ter filhos. É simples, basta não se roçarem na praia enquanto tento desfrutar do meu gelado.

Abreijo.