segunda-feira, 25 de março de 2013

Elasticidade cultural.

Um dia, estavam os meus pais em casa a ver o "Preço Certo em Escudos" quando a minha mãe deixou cair o comando da televisão e baixou-se para ir apanhá-lo. O meu pai, encarando aquilo como um sinal provocativo de acasalamento, agarrou nela pelos cabelos, disse "Uga, uga!" e arrastou-a até ao quarto, onde atearam chamas sem sequer precisar de roçar duas pedras. É mais ou menos assim que imagino a minha concepção.
Ora, dali a nove meses nasci eu, que hoje em dia vos escrevo para falar acerca do país onde nasci. Sim, porque apesar de tudo o que se lhe possa apontar, Portugal chega mesmo a ser um país. E mais do que isso, é um país de coisas maravilhosas. E porquê, por causa dos seus pastéis de nata ou do seu património histórico rico em porrada entre familiares? Não, por causa dos seus pavimentos. E começam já vocês a pensar: "Então mas ele vai falar de calçadas, e tal? Que piada é que isso tem?" Nenhuma, de facto. E se soubessem esperar, deixavam-me explicar. Está bem?
De facto temos calçadas muito belas e distintas, constituídas por paralelos que, bem arremessados, são capazes de deixar mossas bastante bonitas no carro do chefe da empresa. Mas toda a gente sabe que, hoje em dia, cada vez se vê menos se vê deste tipo de pavimentação. E porquê, por causa da maior facilidade em se alcatroar as estradas? Porque a calçada faz dói-dói na viatura? Também, mas não só. Cada vez se vê menos calçada porque esta está a ser obliterada pela indústria das pastilhas elásticas.
Hoje em dia é, de facto, raro vislumbrar-se calçada. O que vemos é um sem-fim de figuras coloridas e de formas diversas no chão, já ressequidas do Sol. Aquela brincadeira de olhar para o céu e identificar figuras nas nuvens pode agora ser feita observando-se o passeio a caminho do quiosque lá da rua. No outro dia podia jurar ter visto um comboio inter-cidades numa pastilha cor-de-rosa que me ficou presa na sola do sapato. Escusado será dizer que a diversão é imensa! Quando tiver filhos, ofereço-lhes todos os natais um puzzle feito de paralelos: "Descubram o objecto de casa-de-banho que se consegue formar com todas estas pastilhas elásticas, que foram mastigadas por desconhecidos!", direi eu todo entusiasmado e com os dedos em ferida de ter andado a arrancar pedras da calçada.
Agora fora de brincadeiras, do que este país precisa é de um Pastilhão em cada esquina. E não falo daqueles "pastilhões" que ficam até às 7h da manhã nas discotecas da baixa da cidade a espumar-se pela boca, até porque as pastilhas destes até nem incomodam muito o ambiente. Falo, sim, de um contentor do lixo reservado especialmente para pastilhas elásticas, que quando ficasse cheio se pudesse, por exemplo, destruir e fazer uma espécie de boneco de neve multi-colorido com o conteúdo.
Era limpeza da via pública e arte contemporânea, ao mesmo tempo.

Abreijo.

Aprender irritando.

Depois de todas as facetas de indignação que aqui já vos transmiti, não me admiraria que ficassem com a ideia de que sou uma pessoa antipática. Mas não, na verdade sou tão simpático como um cão com cio. Com jeito até sou capaz de me agarrar à vossa perna, se gostar mesmo de vocês.
No entanto, tenho que admitir que por vezes tento evitar certos tipos de pessoas. Mas tipos muito específicos, que vão um bocado além daqueles que a generalidade das pessoas tenta ao máximo evitar. Com drogados posso eu bem, por exemplo, pois temos mais ou menos o mesmo estado mental. E até com políticos me dou bem, principalmente porque quase só os vejo na televisão. Também não faço muita questão de aprofundar amizades com eles. Tento, isso sim, evitar ao máximo pessoas que me irritam profundamente, daquelas que se tivesse uma pistola à mão era capaz de disparar sem hesitar. Não para elas, mas para os seus tios-avós mais chegados, ou assim. Só para aprenderem!
E é raro haver quem me consiga irritar mais do que pessoas que estão a tirar a carta de condução. E atenção, não estou a falar de pessoas que já têm licença para conduzir! Falo, isso sim, de pessoas que ainda estão em vias disso. Tirar a carta de condução é como uma gripe, é algo que dá e passa. E ainda bem que assim é, porque nessas alturas as pessoas ficam insuportáveis e nem com termómetros no recto isso lhes passa. Acreditem, eu já tentei...
E ficam insuportáveis porquê? Porque as pessoas que tiram a carta de condução querem sempre tentar ao máximo mostrar que sabem. Quando se está a tirar a carta, os níveis de show-off de uma pessoa aumentam na casa dos 98,73%, de acordo com números oficiais... do meu cérebro. E isso até se percebe num contexto de aula, ou de uma prova de avaliação. Em qualquer outro contexto, não é assim tão relevante. Porque, vejam: às pessoas que nunca tiraram a carta de condução não lhes serve de nada que andem a balbuciar factos rodoviários a toda a hora, elas simplesmente não fazem nem querem fazer ideia do que vocês estão a falar; às pessoas que já tiraram a carta de condução, provavelmente também lhes servirá de pouco porque, lá está... já tiraram a carta!
No entanto, continua a haver uma quantidade alarmante de parvalhões que não conseguem acabar um café curto com amigos sem lhes falar em contra-ordenações graves, ou ir de pendura num carro sem dar palpites acerca do estacionamento da pessoa ao volante. Se está ao volante, muito provavelmente já sabe conduzir! Certo? Certo.
E depois passa-lhes. Como por milagre, mal estes indivíduos começam finalmente a conduzir acabam por perceber que os seus conhecimentos não eram assim tão especiais. (Quase) Todas as pessoas que andam na estrada também os tinham. Afinal, não eram nenhuns génios rodoviários. Incrível, não é?
Eu, por exemplo, raramente fazia isso na escola. Independentemente da quantidade de conhecimentos que tivesse, não fazia muita questão de os debitar. Na maior parte das vezes, até me tentava esconder debaixo da saia da Carla "Badalhoca" sempre que o professor fazia uma pergunta para a turma. Às vezes fazia-o só por lazer, tanto meu como dela. Mas na maior parte das vezes era por causa disso das perguntas...

Abreijo.

terça-feira, 12 de março de 2013

Um texto naj'oras.

Introdução relativamente longa e que pouco ou nada tem a ver com o assunto tratado no desenrolar do texto mas que mesmo assim é escrita, possuindo uma tonalidade cómica, não só para me acharem uma pessoa extremamente interessante e engraçada, mas também para ocupar espaço.
Bom, chegou a hora. De quê? Disto. E calha bem, porque quero-vos falar precisamente sobre as horas. Não tenho nada contra as horas, até acho que é uma forma muito boa de nos orientarmos e tal. Evitamos estar a olhar para o Sol cada vez que queremos saber em que altura do dia estamos. Diz que faz mal à vista. E o que durante a noite ainda é mais difícil, porque o Sol esconde-se e uma pessoa fica sem saber se é hora de almoçar ou de cear. Há quem diga que quando o Sol se esconde significa que anoiteceu, mas eu prefiro não dar voz a esses extremismos pouco fundamentados...
O verdadeiro problema aqui é a forma como muitos de vocês (sim, vocês!) decidem transmitir as horas. Se eu quiser dizer "São 8:50h", tenho à minha escolha três formas de comunicar esta informação. A primeira, e a meu ver a mais consensual, será: "São oito e cinquenta". É simples e é rigorosa, pois é sem tirar nem pôr aquilo que o nosso relógio nos diz. Estamos a transmitir ipsis verbis a informação que acabamos de ler.
A segunda forma que arranjamos para dizer as horas, e aqui já começamos a entrar no campo do improviso, é: "São dez para as nove". E até aqui tudo bem, é uma técnica já mais arriscada de transmissão de informações horárias mas ainda bastante aceitável. Não há mal nenhum nisso. Desde que, lá está, continuemos no espaço temporal presente.
Sim, porque a terceira forma de dizer as horas, talvez a mais frequente hoje em dia, pretende ser mais original e ir mais além do que as outras, acabando por ficar no entanto com fortes tonalidades de "bazófia". É, então, aquela fantástica formulação: "São nove menos dez". Epá, porquê?! Para quê essa pressa toda? Não estão satisfeitos com as oito horas? Elas fizeram-vos assim tão mal para já se quererem situar nas nove horas? Porque é que falam sempre como se já estivessem na hora a seguir, menosprezando a hora em que realmente estão? Isto não vale como viagem no tempo, meus senhores e minhas senhoras. Só porque dizem que são seis menos vinte não significa que estejam na dianteira em relação às pessoas que dizem que são cinco e quarenta. Estão ambos no mesmo espaço temporal.
É que se querem avançar assim tanto no tempo, então podemos dizer: "São quatro menos uma hora", o que significa que são três horas. Porque não? Ou então: "São vinte e quatro menos doze horas", sendo, então, meio-dia. Já que é para aparvalhar, então que sejamos megalómanos. E mesmo noutros contextos, porque não dizer à senhora do mercado: "Olhe, queria três quilos de laranjas menos um". O que significaria que só queríamos dois quilos de laranjas e muito provavelmente um murro na cara por parte da senhora. Elas não brincam.
É isto, caros leitores. Deixem de querer ser mais do que são no que diz respeito ao espectro temporal. Se ainda não estiverem convencidos, então pensem: não vos dá mais trabalho dizer "Tenho trinta e quatro anos menos três", do que dizer "Tenho trinta e um anos"? Para além de que se disserem que são nove menos dez parece que querem ser dez minutos mais velhos à força. Tenham calma, não é por avançarem dez minutos no tempo antes de todas as outras pessoas que já vão ter idade suficiente para conduzir e figurar em pornografia.

Abreijo.

sábado, 9 de março de 2013

A mentira e o caprino.

Pantufa. Pantufa, pantufa, pan-tu-fa, pantufa. Gosto bastante da palavra pantufa... Infelizmente só costumo usar chinelos.
Bom, fui difamado. Acusaram-me de ser mentiroso porque, para efeitos de comédia, disse ter feito algo que na realidade não fiz. Foi apenas uma pequena invenção para dar outra cor à piada que formulei na altura, na minha cabeça. Mas fui descoberto, e agora não consigo dormir. E porque é que não consigo dormir? Porque tenho um vizinho novo cujas cordas vocais estão convencidas de que são familiares directas das cordas vocais do Pavarotti. Mas só de manhã durante o banho, quando ele sai do banho voltam ao seu estado normal. O meu vizinho, não o Pavarotti... Enfim.
Não, isso não me incomoda minimamente. Chamem-me aldrabão à vontade que eu não me importo. No que toca ao humor, a aldrabice chega a ser uma arte, quando bem aplicada. De facto, a mentira faz muitas vezes parte da própria essência do factor cómico. Quem nunca acrescentou certos factos a uma história para a tornar mais engraçada? Se eu disser que o Tobias foi a uma reunião de trabalho sem gravata porque entornou-lhe café em cima, a história não é assim tão engraçada. No entanto, se eu disser que o Tobias foi a uma reunião de trabalho sem gravata porque emprestou-a a um panda que queria cometer suicídio por não ter conseguido entrar num novo filme da Disney, a história já se torna mais interessante. E atenção, este é um exemplo onde só se substituem alguns elementos da história.
De facto, há casos em que a própria história na sua totalidade é inventada. Porque as histórias contadas muitas vezes nem aconteceram. Se eu disser: "Um inglês, um francês e um português foram a um bar..." Não pá, não foram! Podem ter ido a um bar, mas cada um na sua vez. Acho muito difícil terem ido todos juntos. A menos que estejamos a falar na cafetaria da sede da ONU, aí pode muito bem ter acontecido. Ora, isto é logo o início da história. Se a história já começa com uma mentira, torna-se óbvio que o resto também o será. Mas com este tipo de piadas vocês não reclamam! Sabem que é mentira, mas papam tudo! Já eu não posso dizer que usei um pé-de-cabra para assaltar um multibanco mas depois fui devolvê-lo à cabra porque ela batia sempre com o focinho no chão quando tentava andar. Disso vocês já não papam, é uma mentira e um ultraje! Mas tem piada, portanto digo-o. Desde que essa mentira não prejudique ninguém, não há problema. Neste caso até foi bom para a cabra, que todos os dias me agradece com dois queijos pela manhã. Já só tenho que comprar o pão.
E depois há ainda as mentiras que são ditas só para que se possa introduzir um determinado tema. Como esta história de me terem chamado de mentiroso. É mentira, foi só para poder escrever este texto.
Até loguinho.

Abreijo.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Ócio gregoriano.

Antigamente, bastava passar-se aproximadamente quinze minutos num qualquer café para se ouvir a expressão: "Isto está mau!" Hoje em dia, basta sair à rua e ouvimos um senhor a dizer isso ao seu cão, que acabou de defecar em pleno passeio. Só o dinheiro gasto em sacos de plástico implica menos um bife por semana para o pobre senhor. É da maneira que vai menos vezes ao supermercado e adquire menos sacos de plástico. Olha, boa...
De facto, a vida está difícil para todos. Quer dizer, para quase todos. Sim, porque existem certas entidades que ainda agem como se não fosse nada com elas, que ainda vivem na ostentação e na ociosidade. Mas esta gente não tem televisão em casa, não vê as notícias? Falo, como é óbvio, no mês de Fevereiro. Sim, o mês de Fevereiro! Poder-se-á classificar um mês como uma entidade? E se sim, será relevante aferir se tem televisão em casa ou não? São tudo questões deveras interessantes, que só não respondo de modo a fomentar o vosso espírito crítico.
Ora bem, feito o engonhanço inicial, e apresentado o tema, vamos aprofundar a questão mesmo até lá abaixo. Fevereiro é preguiçoso. Fevereiro é aquele gajo que nunca aparece no planeamento e na elaboração dos trabalhos, mas que não falha no dia da apresentação. Basicamente, Fevereiro é um mês indolente e armado em vedeta. Trabalha menos que os outros, mas mesmo assim acha-se no direito de figurar no calendário. E logo num dos primeiros lugares! Porque, vejamos: Alguns meses têm trinta e um dias, outros só têm trinta. E tudo bem, uns são menos produtivos que outros mas ainda assim vê-se que se esforçam. Junho, por exemplo, compensa o dia a menos de trabalho com o facto de ser um mês no qual o calor já aperta bastante e as meninas começarem a sentir necessidade de esquecer a existência de roupa. E, assim, todos ficam contentes.
Agora, vinte e oito dias?! A sério, Fevereiro... A preguiça tem limites! Não queres trabalhar, dá lugar a outro mês qualquer. (Reparem que estou a falar em discurso directo com... um mês. Portanto, é isto. Estou a falar com um mês. E não me droguei, juro!) Em vez do Fevereiro, instituímos o... Ladrilheiro. Olha, nem fica mal: Janeiro, Ladrilheiro, Março... Ou então ficamos só com 11 meses oficiais, pronto. Mas que sejam meses a sério! O resto do tempo aproveitamos para comer uma merenda, ou para visitar a nossa avó que vive do outro lado da floresta. Aquilo ainda é grande, e leva o seu tempo.
Mas como todos os preguiçosos, vemos que também o mês de Fevereiro não vive de consciência livre. Por vezes esta pesa-lhe tanto que lá de quatro em quatro anos ele lembra-se de trabalhar mais um dia. Mais um dia, vejam bem! Meu Deus, que custoso... É que nem nesses anos Fevereiro alcança o nível de produtividade dos outros meses. É o mesmo que eu pensar: "Pronto, em quatro anos não ajudei a minha mulher com as limpezas da casa. Amanhã vou levantar os pés quando ela passar o aspirador!" Não serve de nada, caríssimo Fevereiro. A inutilidade continua lá!
E dizem vocês: "Mas tu nem tens mulher!" E eu respondo afirmativamente, com um gracioso aceno de cabeça, arrastando-me tristemente para os meus aposentos.

Abreijo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Super-texto-não-muito-grande.

Não gosto de criminosos. Eu até percebo a parte deles, têm que subsistir de alguma forma e o que eles fazem até chega a ser uma espécie de lazer. Principalmente os crimes que envolvam fugir, tiros, e assim. É lucro, jogging e caça, tudo ao mesmo tempo.
E em detrimento de eu não gostar de criminosos, por outro lado gosto muito de super-heróis. Bastante, até. Se eu pudesse, casava-me com um super-herói. Mas já se sabe como é este país, só interessa o casamento homossexual e os abortos. Quem tem tara por super-heróis, lixa-se. No entanto, sou da opinião que os super-heróis têm andado já de algumas décadas para cá num impasse ideológico muito grave. Existe muita falta de originalidade e muita preguiça no que diz respeito à dinamização do ramo do super-heroísmo.
Senão, vejamos: Que razão há para se ter parado na caracterização dos super-heróis com base em animais? Ou seja, porque é que os super-heróis se inspiram apenas em animais para criarem a sua persona? Às vezes até se percebe, existem animais cujo porte é realmente intimador e merecedor desse privilégio. Mas porquê só animais? Porque é que não há o Homem-Arranha-Céus, que também é bastante imponente e se cair ainda faz uns estragos valentes? É que na maior parte das vezes os animais nem são muito grandes, e muitos deles até são simples insectos. Porque é que os super-heróis se baseiam sempre em bichos pequenos, tipo aranhas, vespas e morcegos e não escolhem ser o Homem-Urso, ou o Super-Baleia-Branca? Chegou a existir o homem-elefante, mas esse possuía um rol de super-poderes muito escasso... Era muito à volta do assustar criancinhas. E vocês podem argumentar: "Ah e tal, são animais pequenos mas são mais ágeis e habilidosos." Ai é? Então ponham um morcego a lutar contra um urso pardo, a ver quem ganha.
A menos que os super-heróis sejam todos zoófilos - e eu espero bem que não, senão lá se vai grande parte da minha infância -, não há razão nenhuma para que todos queiram ser animais. Eu quando era miúdo também imitava cães e até toiros, mas nunca ladrei para o meu pai nem passei uma tarde de Domingo a afiar os cornos. Se os tenho, que pareçam naturais. É como as mamas.
Se há o Homem-Aranha, o Homem-Morcego, o Homem-Formiga e até o Homem-Peixe-Porco (quanto ao último já não tenho a certeza, posso ter sonhado com isso), porque é que não pode haver, por exemplo, o Super-Abajur, o Homem-Banco-de-Jardim ou, mesmo, o Escrivaninha-Man? Fugia-se um bocado ao tema dos animais e inseria-se o super-heroísmo no âmbito da decoração de interiores, uma área nova, fresca e em tons de fúcsia.
Enfim, existem tantas áreas para as quais se podem virar... Vejam o exemplo daqueles super-heróis de todos os dias, aos quais pouca importância damos. Falo-vos do Homem-do-Talho, da Mulher-a-Dias ou do próprio Homem-do-Saco, que tantas vezes salva os pais de terem que ter paciência em relação à educação dos filhos. Basta ameaçar chamar este super-herói e o trabalho fica feito. É um super-herói que nem precisa de aparecer. Estes sim, são exemplos de heroísmo e coragem! Os Super-Homens deste Mundo deviam pôr os olhos nestes heróis, que escolhem situações triviais do dia-a-dia para basearem a sua identidade. Que nem tem que ser secreta, aliás! O senhor Joaquim Barreiro não tem problema nenhum em admitir que é o Homem-do-Talho da sua aldeia, e isso é de louvar. Também isso faz parte da sua mística.

Abreijo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Sete anos.

Eu sou picuinhas. Já o meu pai também é picuinhas, a minha mãe chega a ser picuinhas e os meus irmãos são só parvos. E já sou picuinhas há algum tempo, lembro-me que o meu avô ainda andava na guerra e já eu era picuinhas. Qual guerra, perguntam vocês? A outra, uma que só eu e o meu avô conhecemos. Chiu.
Foi mesmo desde pequenino que me comecei a aperceber que a quantidade de "picuinhices" com as quais obcecava não fossem talvez normais para o miúdo de buço frágil que era na altura. Hoje continuo a ser de buço frágil, mas já sou um jovem!
É facto também que estes pequenos dramas da minha então curta vida prendiam-se, muitas vezes, com o campo do audiovisual, nomeadamente do cinema e da sua filha bastarda, a televisão. Compreendamos o seguinte: Em miúdo, eu devorava televisão. Era às três e quatro televisões ao dia, sem sequer uma salada a acompanhar. Chegava a ir deitar-me com dores de barriga de tanta televisão, que por não ser muito rica em fibras custava a... Bom, fiquemos por aqui. De facto, foi ao ver muita televisão e ao compará-la com a vida real - já muito agitada, na altura - que me comecei a aperceber de algumas incongruências no modo como são captados alguns episódios que pretendem representar a realidade.
Senão, vejam: Porque é que na vida cinematográfica as pessoas recordam na terceira pessoa factos antigos que presenciaram com os próprios olhos? Para quem joga poucos jogos de vídeo, vão procurar o que significa "terceira pessoa". "E em que medida é que isto é incongruente?", perguntam vocês cheios de pompa e circunstância. É-o porque, a menos que realmente exista aquela coisa da experiência extracorporal, é muito difícil uma pessoa lembrar-se daquela mancha de mostarda que tinha no rabo das calças à altura, porque não a consegue ver. Se não conseguimos ver as nossas próprias borbulhas das costas quando interagimos com uma pessoa ou com um cenário, normalmente também não conseguimos vê-las quando tentamos recuperar esse acontecimento por via da memória. Só nos lembramos, portanto, daquilo que o nosso raio de visão captou na altura. Mas na indústria cinematográfica  pelos vistos não funciona assim, vemos as nossas próprias borbulhas e em HD, com close-ups e planos detalhados. E eu ali, com sete anos e a pensar: "Chiça, quem me dera também lembrar-me de coisas na terceira pessoa... Pode ser que assim descubra quem foi que me deu com o livro de Ciências na cabeça no intervalo de ontem." Sim, eu com sete anos já dizia chiça.
Mas calma, que ainda há mais! E no caso das cartas de correspondência, tão populares em filmes que retratam épocas antigas dado que naquela altura "informática" era apenas uma palavra-segura para a prática do sexo sadomaso? (Eu sou fixe, por isso digo "sadomaso"...) Porque é que quando alguém recebe uma carta nesses filmes e a começa a ler ouve sempre a voz do remetente por trás a ditá-la? Aquilo chega a ser assustador, parece que lhes estão a ler a carta por cima do ombro. Se era para isso, nem era preciso escrevê-la! Até porque carta implica escrita, discurso textual. Eu, por exemplo, quando leio cartas não faço muita questão de a imaginar na voz de quem ma envia.
E com cartas anónimas, como é que isso funciona? Não conhecem a voz do remetente, pois não? Então têm que distorcer a voz, como fazem àquelas testemunhas na televisão que não querem dar a cara. Já viram a trabalheira que isso dá? Até aceito que seja a voz do próprio destinatário lá ao fundo a ler a carta, visto que sermos nós próprios a ler aquele texto todo chegaria a ser aborrecido e acabaria por gorar um bocado o objectivo do conceito audiovisual. Agora, vozes alheias? Sejamos sérios.
Era só isto. Cinema, televisão e tal, mudem lá essas parvoíces.

Abreijo.

Ética em viagem.

No outro dia estava eu a viajar de avião, como pessoa extremamente interessante e viajada que sou, quando, passados aqueles cinco minutos iniciais de fascínio pelo facto de me encontrar acima das nuvens, virei a cabeça da janela para o pequeno ecrã que estava embutido no banco à minha frente.
Um aparte: Discordo totalmente desta disponibilização de ecrãs individuais para cada passageiro. Sendo a viajem já de si aborrecida, e sendo a televisão um meio pensado inicialmente para a visualização conjunta, não faz sentido dar um ecrã a cada passageiro. Até porque a programação é a mesma para todos, é raro haver hipótese de escolha. No entanto, concordo que se disponibilize ecrãs particulares caso haja a opção de visualizar programação, digamos... badalhoca. Nesse sentido, sou da opinião que quanto menos partilha melhor.
Voltando ao tema: Mas a minha já costumeira indignação, que acabei por ter que desligar porque estava a fazer interferência com os instrumentos de vôo, prendeu-se, não com a televisão em si, mas com o tipo de programação que estava a ser emitido. Nomeadamente, com os programas de "apanhados" que toda a gente acha muito giros. O aborrecimento de duas horas e meia de viagem aliado à minha (vastíssima) formação académica levou-me a questionar a legitimidade deste tipo de programas. Senão, pensem: É legítimo criar um programa televisivo baseado na premissa de enganar pessoas? E sim, podem argumentar que a quase totalidade dos conteúdos televisivos actuais desempenham um papel semelhante, principalmente os intervalos publicitários da TVI.
Mas à descarada? Se querem enganar pessoas então façam-no pela calada, como os responsáveis pela marca Johnson's Baby que juram que o seu shampô não provoca lágrimas ou como os intervenientes nos tempos de antena nos dias antecedentes a um sufrágio. Mas não o façam de forma tão evidente, assim dão que falar a pessoas pouco ocupadas como eu. Ninguém, para além de mim, reparou ainda nas violações a directrizes éticas que estão aqui em causa? Sim, meus vagos conhecidos: Os programas de "apanhados" são ética e moralmente condenáveis. Trata-se, nada mais nada menos, do que perfídia e deslealdade para com as pessoas abordadas. E com a agravante de haver ainda marmanjos encafuados em casa (ou no avião, neste caso) a gozar com a cara deles. Do tipo: "Olha que giro, aquele senhor pensa que lhe estão a chacinar o carro quando se trata de uma réplica exacta." Ai é giro? E deixamos de parte o direito à verdade e à transparência? Escusado será dizer que, a partir dessa fatídica viagem de avião, todo e qualquer apreço que nutria pela imagem do mítico Guilherme Leite acabou por se desvanecer. Que monstro!
Atenção, não quero com isto dizer que este tipo de programação é inviável, ou que não tem lugar nas nossas televisões. Bastava que houvesse algumas alterações e o conceito até ficava interessante. Em vez de espatifar réplicas, porque não espatifar o carro verdadeiro do senhor? Ao menos aí não haveria trapaças e enganos tão condenáveis do ponto de vista ético, e até em termos de galhofa se tornava num conceito mais engraçado. Afinal, tem mais piada quando sabemos que é a sério.

Abreijo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Parcelamentos capilares.

Não sei qual de vocês andava esta noite a fazer barulho no meu armário do quarto, mas parem com isso que a minha namorada queixou-se a noite toda. Até gemia, parecia que lhe estavam a atacar o estômago, ou assim...
Bom, já aqui falei de cabelo. Várias vezes, até... É um assunto sobre o qual era capaz de escrever uma tese inteira, caso houvesse alguém interessado em ouvir as minhas opiniões sobre folículos capilares. Mas enfim, já se sabe que neste país não há o hábito de dar importância às grandes questões.
E a pergunta que dará início a toda esta... chinfrineira é, então, a seguinte: Porque raio é que o cabelo da cabeça é o único aceitável, e até desejado? (Reparem que chegam a ser duas perguntas numa só; há que poupar caracteres, que isto não está fácil para ninguém.) Porque, vejamos, o cabelo da cabeça não é diferente do cabelo das costas. Pela vossa saúde, não é! É exactamente igual aos outros cabelos, só aparenta ser diferente porque o deixamos crescer e damos-lhe formas giras. E logo aí vemos começarem os preconceitos: porque é que na cabeça temos cabelo, e no resto do corpo temos "pêlos"? E os pêlos, não são cabelo também? E o tomate, não é um fruto? Bom, penso que já estarei a ultrapassar os limites desta nossa discussão. Esta questão do tomate fica para outra salada. (Que piada, meu Deus!)
De facto, o cabelo da cabeça só tem a importância que tem porque é o menino mimado da sociedade contemporânea. Antigamente não havia exclusão de qualquer tipo de cabelo, havia até um culto de manutenção e melhoramento dos vários cabelos. Quando hoje vejo o meu vizinho a podar os arbustos do quintal, bate-me a saudade e relembro antigos tempos de glória em que uma zona púbica bem farfalhuda era motivo de orgulho. Se eu pentear os pêlo púbicos todos acham estranho, e dizem que eu sou nojento, e que não uso mais a escova deles; mas pentear os pêlos capilares já não faz mal, e é muito giro!
Há toda uma panóplia de produtos para manter, melhorar, mudar, moldar e manietar o cabelo da cabeça, mas pouco ou nada há para o cabelo do peito, por exemplo. Aliás, o desejável até é arrancá-lo! O único tipo de cabelo que se pode dar ao luxo de ser socialmente aceitável, para além do da cabeça, é o das pernas. E até esse de forma extremamente condicionada, porque é apenas aceitável nos homens e já não é qualquer homem que o vê com bons olhos. Algumas mulheres também tentam adaptar este estilo às escondidas, principalmente durante o Inverno quando não destapam as pernas. Mas nelas já não fica tão giro. Confiem em mim.
E não me venham com o argumento de que o cabelo da cabeça é o mais bem aceite porque é o que salta mais à vista. Esse argumento cai por terra, por exemplo, no contexto de um clube de striptease. Nesses lugares, a zona da cabeça é das últimas para onde se olha. E nem nestes casos se vê uma valorização dos restantes cabelos, estão ali elas (ou eles, dependendo da preferência) rapados que nem bebés de colo. Até os cabelos faciais, também eles designados por um nome diferente, são tão visíveis como os da cabeça e mesmo assim são tidos como indesejáveis: a chamada barba, que antigamente era sinónimo máximo de virilidade, superior até à posse e ostentação de um pénis, tem vindo a marcar cada vez menos presença nas faces masculinas (e até em algumas femininas) de todo o Mundo. Diz-se ser sinónimo de desleixo, de despreocupação com a aparência. Então se uma barba mal-aparada é sinónimo de desleixo, deixar crescer cabelo na cabeça também não o devia ser? E o que dizer das sobrancelhas e das pestanas, que se desaparecem cai o Carmo e a Trindade? Eu não conheço nem o Carmo nem a Trindade, mas o que é facto é que caem sempre em alturas escandalosas.
Sejamos sérios em relação à matéria capilar, meus amigos... Não vamos cair no erro de menosprezar certos tipos de cabelo, enquanto primamos por outros. Se querem deixar crescer então deixem crescer tudo, não só parcelas.
E mesmo que este texto não tenha sido suficiente para vos fazer mudar de ideias, ao menos que tenha servido para me dar a possibilidade de escrever a frase: "... posse e ostentação de um pénis...".

Abreijo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Cacofonia desnecessária.

Há ainda muitas questões por resolver, nos nossos dias: em África continua-se a passar fome, enquanto que no Sul da Europa para lá se caminha; a Leste continuam as guerras santas; e no Mundo há já dois buracos enormes que ainda ninguém chegou a um consenso acerca de como os tapar, o financeiro e o da camada de ozono. A vagina da vossa mãe, para mim, não conta. Entretanto, a falta de resolução da maior parte, senão de todos, estes flagelos prende-se, tenho vindo a reparar, com a preguiça do ser humano. Sim, de vocês seus indolentes! Senão reparem, e nisto eu até vos percebo: Porque é que se hão-de dedicar à resolução destas grandes questões se há quem nem se digne, primeiro, a tentar resolver os problemas mais ligeiros? Falo, como é óbvio (e como qualquer psicólogo que já se tenha apercebido da minha perturbação psíquica adivinhará), dos alarmes dos carros. E pronto, está inserido o tema.
Sejamos sérios, meus caros: quem é que já alguma vez deu o devido uso ao seu alarme do carro? Mais, quem é que reconhece sequer o padrão sonoro do alarme do respectivo carro? Se vos tapassem os olhos, talvez fossem capazes de reconhecer o vosso telemóvel no balneário enevoado de uma sauna masculina apenas através do toque de chamada. Se bem que se vos taparem os olhos num ambiente de sauna masculina então terão certamente mais com que se preocupar. Mas aposto que se o mesmo método fosse adoptado num parque de estacionamento do centro comercial mais próximo (o que também não seria muito bom sinal, diga-se) não conseguiriam identificar o vosso carro através do som. Mas é aqui que a coisa se torna curiosa: Os vossos vizinhos certamente conseguiriam! Porque, na verdade, os alarmes das viaturas não servem para alertar os donos, ou mesmo a polícia, de que algum furto está a ser levado a cabo. Serve, isso sim, para incomodar as restantes pessoas.
O alarme do carro deve ser o aparelho mais deprimido de todo o sempre. Ninguém lhe dá atenção, é raro dar-lhe uso e ninguém respeita as suas potencialidades. Aliás, é frequente as pessoas irritarem-se com essas mesmas potencialidades. Isto porque o alarme do carro encontra-se numa espécie de "limbo utilitário": Não é encarado como algo ameaçador para ladrões e polícias, a quem primariamente se destina, mas é-o para qualquer transeunte comum que nenhuma ameaça representa. De facto, quem mais teme os alarmes dos carros não são os patifes, ou a bófia. É, isso sim, aquele indivíduo extremamente tímido que foi comprar papel higiénico ao supermercado e não quer dar nas vistas. É o bêbado que, à saída do bar, procura um lugar para se encostar e tem que recorrer a uma parede com três camadas de urina, por medo de accionar o alarme de um carro qualquer estacionado à porta. É a senhora, digamos, rechonchuda que se vê aflita com o dilema de passar entre dois carros estacionados muito perto um do outro ou contorná-los, por medo de disparar não um, mas dois alarmes ao mesmo tempo. São estas as pessoas que realmente temem os alarmes das viaturas! E agora digam-me: Será este um propósito digno? Gostará esta funcionalidade electrónica de ver o seu propósito tão nobre ser lacerado pela indignação justa dos inocentes transeuntes que, noutras circunstâncias, até nem lhe quereriam mal?
Como é que queremos resolver os grandes problemas mundiais se nem prestamos atenção ao bem-estar dos alarmes de viaturas? São aparelhos electrónicos? São, sim senhor. Então, nessa medida, esta pergunta será estúpida. Mas como é que queremos resolver os grandes problemas mundiais se nem prestamos atenção ao bem-estar dos inocentes que entram em contacto real com os alarmes de viaturas?
E é aqui que eu entro, com ideias e propostas que vos farão exclamar: "Meu Deus, que dor que me deu aqui nos rins!" É bem feita, eu bem vos disse para não reterem o chichi. Então, uma das soluções será a eutanásia justificada dos alarmes de viaturas; proceder-se à extinção completa desta funcionalidade, não só para acabar com a zombaria indigna de que é alvo, mas também para acabar com o constante medo que todos temos de abraçar carros na rua aleatoriamente, actividade tão divertida e compensatória. Outra solução será adaptar este tipo de alarme sonoro a alguma coisa realmente digna de atenção; por exemplo, criar uma estratégia que faça com que este alarme dispare quando estão perigosamente perto de nos descobrir a colecção de pornografia que temos em casa. Mesmo relacionado com badalhoquice, acabava por ser um propósito mais digno do que aquele que os alarmes de viaturas acabam por ter.
Se bem que, no meu caso, não seria necessário um alarme destes. A colecção tornou-se tão grande que já desisti de a tentar esconder.

Abreijo.