segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Tudo a 100%.

Sou preguiçoso, mas odeio a preguiça. O que acaba por me dar demasiado trabalho, o ódio, porque, como já disse, sou preguiçoso. Vêem? É com este tipo de dilemas que lido todos os dias...
Mas eu sou daquele tipo de pessoa que leva os seus actos até ao fim, neste caso a preguiça. Por isso, odeio quem acha que pode vir para esta vida de preguiçoso só porque sim. Falo, pois está claro, dos produtos que prometem remover 99,9% daquilo que é pretendido remover.
Não me levem a mal, eu também quero ter uma cozinha mais limpa, uma sanita bastante bem desinfectada, um pé o menor atleta possível e um cabelo três vezes mais sedoso e com muito pouca probabilidade de se partir, seja o que for que isso significa. Mas desconfio de produtos que, a dedicarem-se a essa causa, não se dedicam até ao fim, quando estão tão perto de atingir a perfeição!
Veja-se o meu caso: Eu nunca seria capaz de comer apenas 99,9% de um saco de batatas, nem de beber apenas 99,9% de um sumo. Sim, são alimentos pouco saudáveis, mas vocês não têm nada a ver com isso! A única forma de deixar 0,01% de alguma coisa por fazer é se esse valor disser respeito à lavagem de roupa interior... Aí, convém deixar sempre uma pequena percentagem de fora, para não andar com o badalo a lamber o chão de arrasto enquanto a roupa lava e não lava numa máquina com apenas 0,01% de calcário.
Porque, é o seguinte: Se estes produtos removessem apenas 50,9% daquilo que foram feitos para fazer desaparecer - como nódoas, bactérias e fungos -, eu até percebia e aplaudia mesmo o esforço de terem conseguido remover mais de metade. Agora, 99,9%? Porquê morrer assim na praia, desistir a um passo da meta? Porque não esforçar-se mais um bocadinho, apenas 0,01%, e remover tudo de uma assentada?
E se eu comprar outro produto igual, para compensar a quantidade em falta na primeira embalagem, passo a remover 199,8% de alguma coisa? Será isso possível, sequer?
A todos os inventores destes produtos, um apelo: Porque não passam mais uma ou outra horinha no laboratório e acabam de inventar o 0,01% que falta? Custa-vos assim tanto? A vossa família vai gostar menos de vocês por terem ficado uma hora extra no trabalho? Até pelo contrário, são capazes mesmo de vos apreciar mais, pois assim têm a hipótese de ter um lar 100% limpo e a vossa mulher tem mais tempo para mandar o amante embora, que nem tem tido tempo para fazer conchinha com ela no fim do sexo.
O que achariam de um avião que apenas fizesse 99,9% da viagem? Ou de um trolha que apenas construísse 99,9% dos alicerces de uma casa? E o que dizer de um cozinheiro japonês que apenas tirasse 99,9% do veneno do peixe? Percebem onde eu quero chegar? Então parem de ser preguiçosos!
"Não deixes para amanhã o 0,01% de algo que podes fazer desaparecer hoje", já dizia a minha avó.
Era muito boa a matemática, o raio da velha... E a conselhos de vida também.

Abreijo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

As mãos das mães.

Se estão a ler isto no Dia da Mãe, então estão na época correcta e podem continuar a ler. Se não estiverem, o que eu até percebo porque as probabilidades são bastante baixas - uma em 365 (ou 366, se for ano bissexto) -, fechem qualquer que seja o suporte através do qual estão a ler isto e voltem só a abrir no dia correcto.
Vá, até breve!


Pronto. Agora que chegou o dia, vamos falar sobre mães. Já aqui falei da minha, e continuo-lhe extremamente grato por me ter parido. Parecendo que não, ainda lhe deu algum trabalho, principalmente na zona da genitália.
Tenho de admitir uma coisa: A minha mãe é uma super-heroína! A minha e, desconfio que, todas, porque aquilo de que vos vou falar agora é transversal a todas as senhoras que já puseram no Mundo algum rebento. É o seguinte: A capacidade que a minha mãe tem para pegar e manusear coisas quentes não é deste planeta. As mãos da minha mãe estão tão calejadas que desconfio que, para ela, as luvas de forno sejam um mero acessório de moda. Aquilo nem lhe chega a ser útil, apenas fica bem com aquela echarpe bege que comprou quando foi passar umas férias de Verão ao deserto do Saara.
É que, para provar uma refeição, a maioria das mães nem precisa de colher-de-pau: Põe a mão dentro da panela e tira um punhado do que quer que esteja a cozinhar. Se for sopa, faz uma conchinha com a mão e até dá a provar aos outros, que vão imediatamente para as urgências com queimaduras de segundo grau e bolhas de pus nas paredes interiores do estômago. Para a minha mãe, a comida nunca estava quente, eu é que era um mariquinhas. O que não deixava de ser verdade, embora a comida estivesse, efectivamente, quente...
Uma vez, propus à minha mãe uma sessão de manicura para me certificar de que ela ainda tinha mãos de carne e osso, e que não as tinha perdido um dia quando me estava a mudar a fralda, ou assim. Não só descobri que era muito bom a pintar unhas como também acabei por levar um estalo, porque ela não gostou dos Monets que eu lhe desenhei. Em suma, concluí que ela tinha umas mãos normais mas muito, muito pesadas.
Não quero, de todo, entrar naquelas brigas de crianças de "O meu pai é mais forte que o teu!", ou, "O meu avô come mais gajas do que o teu tio, que até faz da prostituição um estilo de vida!". Mas tenho a certeza de que a minha mãe era capaz de extinguir um vulcão activo atirando a lava ainda quente para dentro da caldeira vulcânica com as suas próprias mãos, sufocando-o. Tudo isto num dia de semana, enquanto via a novela.
No fundo, o que eu quero dizer é: A minha mãe é melhor do que a vossa, nhê nhê nhê, nhê nhê, nhê!
Raios, eu prometi que não ia fazer isto...

Abreijo.

sábado, 8 de novembro de 2014

Parabéns a vocês, meus bandalhos.

Pronto, acabou! Hão-de ter paciência, mas acabou... Estou farto, isto assim não pode continuar. Enquanto não pararem com estas brincadeiras, eu não faço mais anos. Não me interessa se fico na casa dos vinte indefinidamente, nem se nunca terei o prazer de gozar a reforma ou, até, de realizar uma colonoscopia. Já ouvi dizer que aquilo é melhor do que se pensa.
Já aqui falei da temática "bolo de aniversário", e desta vez o meu problema é com o que se põe em cima dele. A cobertura diabética? Não. As rosas, begónias e outras flores de massapão? Nem por isso. Quero acertar contas, isso sim, com as velas. E não é com as velas normais, porque essas até dão jeito quando falta a luz e antigamente até eram indispensáveis para quem desejava ver alguma coisa debaixo dos lençóis.
Vou contar-vos uma história: Quando eu era pequeno, tinha medo de fazer anos. Acordava suado, com tremores e sem apetite. Aos desejos de bom dia da minha família, eu respondia com um sorriso amarelo e um "Vão-se lixar!" mental, porque já sabia o que me esperava dali a algumas horas. Passava o dia todo a fazer cara feia para os meus colegas e professores, se calhasse em dia de escola, e para a minha almofada caso fosse fim-de-semana. Até podia jurar que, uma vez, a minha almofada me respondeu com um pirete. Já os meus professores, só me respondiam com socos nas têmporas. Enfim, eram tempos mais meigos...
Ao fim do dia, lá chegava o malfadado momento da festa de aniversário. Era nesta altura que o meu mau-humor atingia picos assustadoramente altos para um miúdo da minha idade, fosse ela qual fosse. Entrava pela sala onde estava o bolo, e toda a minha família, com a mesma camada de nervos com que um pugilista amador deve entrar ao enfrentar o campeão do Mundo de pesos pesados. E era aí que eu as via, compridas e esguias... Duas estacas de tortura em cima de um pedaço de massa colorido.
Finalmente, depois da musiquinha típica, lá tinha eu que lhes soprar. E soprava. E o Mundo abrandava à minha volta, o som tornava-se grave e abafado nos míseros segundos em que aqueles dois paus se mantinham às escuras. Depois voltavam a acender-se aos poucos, preguiçosos e gozões. E eu apagava outra vez, ou pelo menos pensava que sim. E eles voltavam a acender-se, podia jurar que com ainda mais força. Depois juntava-se outro membro da família para me ajudar, e aumentava o meu sentimento de impotência e inutilidade. Quando, finalmente, as velas se apagavam, todo eu era insegurança, compactada dentro de um miúdo de [inserir idade aqui] anos.
Isto tudo para dizer que eu, no fundo, não gosto de fazer figura de parvo. Muito menos no dia do meu aniversário. Por isso é que odiava essas tais velas que se voltavam a acender sozinhas, e odiava todas as pessoas responsáveis por trazer aquela monstruosidade para o conforto do meu lar. Aquilo não é divertido quando somos pequenos, meus caros, aquilo é tortura! Só os adultos à volta, os mirones da festa, é que se divertem ao ver a nossa triste figura.
No fundo, trata-se de entretenimento gratuito às custas de uma criança. E para isso já temos os primeiros passos, as primeiras palavras mal ditas e as primeiras bebedeiras de leite com creme de whisky. Não precisamos de a achincalhar no seu próprio dia de anos.

Abreijo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A mal-amada sétima arte.

Ora viva! Comecemos com uma declaração chocante: Eu não gosto de cinema.
Pronto, agora que já vos choquei, isso também não é bem assim. Quer dizer, eu até gosto de cinema, só não gosto é de ver filmes. Quer dizer, eu até gosto de ver filmes, mas não os consigo ver. E não é por impossibilidade de meios, até porque cinemas há muitos, leitores de DVD também e, vá lá, sejamos honestos, Internet.
Só não consigo ver filmes por uma limitação pessoal. É que são muito longos e, ao mesmo tempo, muito curtos. Sim, tirei o dia para vos fazer a cabeça em água... Este é um dilema que já me acompanha há vários anos, desde que descobri a magia das séries televisivas; esses pedaços pontuais de perdição e loucura videográfica... Peço desculpa, estava a pensar em pornografia.
Se eu vir um filme, por exemplo, no computador, pauso-o várias vezes para ir ver o email, para verificar o estado actual das redes sociais, para ir à casa-de-banho, para ir tratar do cão e, até, certa vez, para ir lavar a loiça. E faço isso não por obrigação, mas porque não consigo ver uma, duas ou até mesmo três horas seguidas de qualquer coisa sem ter que fazer uma pausa. Uma vez, uma namorada minha obrigou-me a olhá-la de lingerie durante apenas meia-hora, e passados dez minutos já eu estava a jogar às cartas com o meu sogro. Numa outra sala, claro...
E vocês argumentam: "Então vai ver ao cinema, meu palhaço!" E eu respondo: Palhaço não, que ainda não acabei a formação. Mas é inútil, também no próprio cinema tento sempre encontrar desculpas para que haja pequenas pausas no filme. Ou se me acabam as pipocas, ou se me acaba o sumo, ou se acabam as pipocas e o sumo da pessoa ao meu lado; ou se me dá vontade de ir urinar, ou se dá vontade de urinar à pessoa ao meu lado... Enfim, sou uma pessoa muito prestável e altruísta.
E, no entanto, apesar do muito tempo que demora um filme a terminar, a verdade é que o tamanho e a desenvoltura da história nunca me satisfazem. Acho sempre que ficaram coisas por contar, fico sempre à espera de um novo episódio na semana seguinte. Por isso é que, para mim, as séries televisivas são perfeitas, pois são cozinhadas numa rica e longa história e temperadas com várias pausas intercaladas, formando a dose, o aroma e a textura perfeitos.
Por isso, meus caros, deixem lá de me crucificar todas as vezes que digo que não sou fã de cinema. Não é por ele não ser bom, que às vezes até o é, mas sim porque tenho problemas de atenção.
No fundo, tenho uma forma estranha de hiperactividade, que é aquilo que, antigamente, se chamava só de má-criação.

Abreijo.

sábado, 16 de agosto de 2014

O Mundo segundo algumas pessoas.

Cerca de 7.000 biliões de habitantes literalmente, mais pessoa menos pessoa , 6.371 km de raio e 510.000.000 km² de superfície. Isto podia ser a descrição do meu pénis, mas não é. Nunca conseguiria alimentar tanta gente. Na verdade, isto é a descrição do planeta Terra, aquela bola azul gigante a que nos vamos agarrando ao longo das nossas vidas para não cair. E, no entanto, mesmo tendo conhecimento destas dimensões, ainda há quem tenha o desplante de afirmar que "o Mundo é mesmo pequeno".
Você não se esconda, caro leitor, que eu estou a ver os seus pés aí por debaixo da cortina. É altura de encarar a realidade e enfrentar as consequências dos seus actos verbais. Eu sei, com garantida certeza, que o leitor já se viu na situação de encontrar uma pessoa conhecida numa zona remota e de afirmar, bacocamente, qualquer variante de: "Engraçado, o Mundo é mesmo pequeno!" Ai o Mundo é pequeno?! Mas você já viu bem o Mundo? Isto é grande com'ó caraças! Eu até nem sou de casas grandes, mas aqui o Mundo encheu-me o olho porque tem umas assoalhadas robustas e que aguentam bem o peso dos móveis que eu trouxe da casa antiga... Que era, tipo, Marte, ou, sei lá. Para efeitos de comicidade, fica Marte.
De facto, o Mundo é capaz de ser das maiores coisas que já vi na vida, de perto. Dizem-me que o Sol é maior, mas ainda não tive oportunidade de lá ir fazer uma visita. Talvez no próximo Verão, porque dizem-me que aquilo é bom é no aperto do calor. Deve ter boas praias, ou assim...
Claro, à escala do Universo inteiro é facto que não passamos de um micróbio especialmente chato; mas à nossa escala individual, este planeta chega ainda a constituir um espaço bastante satisfatório. Tanto que, desde que me mudei para cá, nunca mais de cá saí. Sou uma pessoa muito caseira, eu.
Ainda para mais, encontrarem um outro ser humano num espaço público qualquer não é algo assim tão inédito. Indédito seria encontrarem o vosso furão ou a vossa iguana numa floresta do interior de África, sabendo que esses animais ainda não desenvolveram meios de locomoção mecânicos. Para quem tem um avião ou um barco, fica mais fácil encontrar pessoas conhecidas noutra parte do Mundo.
É que, ao longo da História, muita gente trabalhou e batalhou, até literalmente, para conseguirmos obter uma representação mais ou menos fiel da escala global. Vamos agora questionar todas estas concepções que temos vindo a fazer acerca do Mundo ao longo dos séculos só porque você reencontrou a sua tia-avó americana numa largada de toiros em Espanha enquanto o toiro lhe afagava violentamente uma coxa com o corno e decidiu que o Mundo, afinal, é mesmo pequeno? Tenha paciência, o egocentrismo fica-lhe muito mal. A mim até fica bem, como tudo aliás, mas a você nem por isso.
E pronto, basicamente era isto. Até logo, depois havemos de combinar um cafezinho.

Abreijo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Assobiadelas em construção.

Olá, pessoas bonitas! Quer dizer... Olá pessoas. Pronto.
Quem é que aqui sabe assobiar? É aquela coisa que envolve fazer um biquinho com os lábios e que não mete objectos fálicos nem câmaras fotográficas ao barulho. Agora, quem é que sabe assentar tijolo? É aquela coisa que ninguém quer ter que fazer, mas que tem sempre que calhar a alguns. Pois bem, se responderam de forma positiva a estas duas questões, há fortes possibilidades de vocês serem trolhas. E ainda bem, porque era mesmo com vocês que eu queria falar.
Eu tenho bastante apreço pela vossa labuta, a sério que sim. Mas a inovação é uma coisa necessária e até aconselhável praticamente em todos os trabalhos - excepto na venda de antiguidades -, e tenho sempre a ideia de que vocês não estão a inovar o suficiente. E a humanidade necessita da vossa inovação, por exemplo, no que diz respeito a dirigir assobios para gajas boas. Digam-me lá, há quantos anos usam o mesmo assobio para mostrar agrado em relação à constituição física de uma determinada pessoa? Todos sabemos de que assobio estou a falar, aquele "fui-fuiu!" a descair para o curto, mas com muita personalidade.
No fundo, somos todos um bocado trolhas, porque em todo o Mundo se recorre a um assobio idêntico. Já no que diz respeito aos piropos, somos uns artistas: "Ralava-te uma sopa de grelo com a minha varinha mágica!" e "A tua mãe merece a carta de piloto, porque não deve ser fácil parir um avião!" são verdadeiras obras de arte do mundo da construção civil, e da urbe no geral. Já a costumeira sonoridade do tal assobio torna-se repetitiva ao fim das primeiras, vá lá, duas décadas. Se ainda não estão convencidos - o que, desde já, demonstra alguma teimosia da vossa parte -, imaginem lá um Mundo onde os trolhas mandam sempre o mesmo piropo. É algo estranho, e até contranatura, não é?
Sim, se há coisa em que os trolhas são originais, para além de encontrar novos meios para esticar a factura, é nos piropos. E se o assobio é, no fundo, um piropo, então porque não variá-lo? Porque é que não começamos a assobiar uma das sinfonias de Beethoven quando vemos uma miúda gira? Uma qualquer, elas também não são esquisitas. Ganha-se em originalidade e em probabilidade de as engatar, porque ficarão a pensar que somos indivíduos com classe quando, na verdade, somos umas bestas. Quer dizer, eu não, mas vocês sim.
Pensem nisto, reflictam bem na vossa conduta piropeira. Se tiverem dúvidas em relação às quais eu possa ajudar, liguem para a minha secretária. Ela é pequenina, mas é feita em madeira maciça, de uma roseira que tinha no jardim. É resistente e trata-vos de tudo.

Abreijo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A nobre arte do arroto.

Se há família unida, é a minha. Não falo em termos de junções corporais, do género siamês, pegados pelas ancas, nem sequer em termos sentimentais. Eu, por exemplo, estou sempre a discutir com o meu cão. Embora ele seja mais de ladrar.
No que a minha família se mostra verdadeiramente unida é nos hábitos e nos costumes. Com efeito, no meu agregado familiar, quatro de cinco pessoas não conseguem arrotar. É um impedimento estúpido de se ter, bem sei, mas demonstra na perfeição a nossa profunda sintonia. A única que não está bem sintonizada é a minha mãe, porque consegue realmente arrotar, mas de qualquer forma eu sempre desconfiei que ela fosse mãe do padeiro. Espera, isto assim não funciona...
No fundo, somos um conjunto de pessoas extremamente bem-educadas à mesa, mas por razões que lhes são alheias. É como se estivéssemos a ser forçados a ter bons modos por uma qualquer entidade de etiqueta invisível. Menos a minha mãe, lá está, que essa é só javardona.
O que poderia ser considerado positivo, no entanto, acaba por ser algo incómodo e até relativamente nocivo. Isto porque o ser humano não foi criado para acumular gazes, tipo botija, e até a botija tem válvulas que lhe vão dando algum vagar. É por isso que, às vezes, gostava de ter nascido mais javardo, como a minha mãe, para poder ter uma válvula que não me deixasse afrontado cada vez que comesse uma colherada a mais de sopa de nabiça. E perguntam vocês: "Querias ser ainda mais javardo do que já és?"; e eu respondo-vos: "Não sejam parvos. E eu nem sequer gosto de sopa de nabiça."
É por causa desta absurda impossibilidade fisiológica que quando os membros da minha família bebem bebidas com gás ficam inchados como se fossem um pequeno cardume de peixes-balão. E eu até gosto de peixe, para variar um bocado da carne, mas nunca me imaginei nas escamas de um. Para além disso, já provei fitoplâncton e não gostei, é muito salgado.
E quando eu era miúdo, não arrotava? Claro que sim, e reparem que já começo a falar sozinho. Segundo a minha mãe, quando eu tinha cerca de três palmos era um campeão do arroto! Entretanto, pelos vistos, fui perdendo o fulgor. Talvez me tenha lesionado nos treinos, sei lá, depois de um dia especialmente intensivo a comer papas e puré de maçã. A partir daí, nunca mais consegui competir em arrotos com o bebé da vizinha do lado. O gajo era mesmo bom naquilo!
Pronto, tudo isto para que o caríssimo leitor fique a par de um aspecto especialmente interessante da minha vida, e da vida dos meus familiares. Mas não lhes diga que eu contei isto, que eles ficam chateados. Principalmente a javarda da minha mãe.

Abreijo.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Querem namorar comigo?

Olá, tudo bem? Deixem estar, não interessa.
Podemos falar um pouco acerca da genialidade dos bilhetes de amor que mandávamos na escola primária? Quanto a vocês não sei, mas eu sempre fui um romântico. Já em miúdo, a Minnie não era, para mim, apenas a gaja do Mickey, como diziam os meus amigos mais serranos, mas sim a sua donzela. No máximo, fazia uma ou outra piada sobre a sua rata, mas nada de mais.
Em relação às donzelas reais, da minha turma, eu também era um verdadeiro mini-Don Juan. Os bilhetes que mandava nos intervalos das aulas - sim, porque durante as aulas treinava-se a arte da sedução com a borracha do lápis na boca - eram carregadinhos de sentimento, desde a acutilância das perguntas "Gostas de mim?" ou "Queres namorar comigo?" até à multiplicidade estratégica das hipóteses de resposta, tudo envolto numa caligrafia de fazer inveja ao mais criativo artista plástico.
À pergunta do admirador, a visada respondia fazendo uma pequena cruz numa das três caixas à disposição, com as hipóteses "Sim", "Não" ou "Talvez". Desta forma, não se deixava nada em aberto. Por vezes, havia também uma quarta opção, "Se os meus pais deixarem", que implicava até um contrato com terceiros. Quem diz que os miúdos não têm lugar no mundo dos altos negócios nunca mandou bilhetes de amor em pequeno, com certeza.
No fundo, responder aos meus bilhetes era um bocado como jogar uma versão alternativa do Quem Quer Ser Milionário, com várias hipóteses de escolha, apresentada por uma folha de papel e onde o prémio final era o meu coração. Sim, um trem de cozinha talvez fosse mais útil, mas não constituía um prémio com tanto sentimento.
As paixões, essas, eram duradouras, porque eu não era cá menino de andar a saltar cercas. Nem no sentido figurativo, nem literal, porque tinha medo que os vizinhos se zangassem. Quem respondia positivamente aos meus bilhetes podia contar com o meu amor incondicional até à hora do almoço do dia seguinte, pelo menos, porque entretanto instalava-se aquela rotina do casal e a fome toldava-me todos os outros pensamentos.
Já o fim da relação era penoso e angustiante, porque implicava explicar a uma pessoa que ainda estava a aprender a tonalidade das vogais que a nossa relação não agourava um futuro promissor. Normalmente, quebrava o gelo dizendo: "Tal como esta conta de dividir se conjectura difícil, também a divisão do nosso amor se adivinha custosa para ambos." Era tiro certeiro. Às vezes, até acabavam por partilhar comigo o conteúdo da sua lancheira, como oferenda de paz.
Eram outros tempos, isso é certo. Hoje em dia, já só arranco folhas dos cadernos para fazer aviões de papel e enviar para os quintais dos vizinhos que me aterrorizavam em miúdo, quando lhes tentava saltar a cerca. Enfim, vicissitudes do karma.

Abreijo.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Apreensões bucais.

Podem dizer que não à vontade, mas eu cresci. No entanto, quem disser que não, é cócó.
Sim, é verdade, cresci em muitos aspectos. Hoje em dia, não só sou capaz de chegar às prateleiras mais altas da casa como também sou capaz de discutir, sem risinhos parvos, variados temas da actualidade com outras pessoas, desde que não envolvam demasiados sentimentos. Já a tabuada, essa, continuo sem a saber de cor.
Contudo, talvez o aspecto preocupante da minha infância em relação ao qual se nota algum progresso da minha parte seja o meu medo de perder os dentes de leite. Sim, é verdade. Em miúdo, uma das coisas que mais me apavoravam era a inevitabilidade de vir a ficar sem dentes de leite. Podem chamar-me parvo à vontade, embora o acto de chamar parvo a um miúdo não abone muito a vosso favor. São piores do que as crianças, vocês!
Ora, porquê este medo precoce de um acontecimento tão banal como perder as trituradoras bucais de leite, perguntam vocês? Vá, perguntem, estou à espera... Pronto, vou responder: Porque gosto de estar sempre preparado. Sou uma pessoa que, desde cedo, se identificou com aquela ideia de um homem prevenido valer por dois, de modo que gosto de ter sempre suplência. Por isso, gostava de ter sempre um conjunto de dentes extra para reserva, pois nunca se sabe quando vão ser precisos. Sim, é verdade, não confio a mim próprio nem os meus dentes! Eu não sei bem do que sou capaz, e há gente para tudo.
No entanto, posso garantir-vos que este receio em relação ao desamparo oral que é característico aos seres humanos já foi muito pior. É verdade que passei metade da minha infância descansado, pois por alguma razão álcool, quem sabe , pensava que depois dos dentes de leite ainda tinha mais um conjunto de reserva. Uma espécie de dentes de café com leite, digamos, para os já mais crescidos. Descafeinado, claro, e de leite magro para não espicaçar o colesterol. Mas quando me contaram toda a verdade, fiquei preocupadíssimo. Todos aqueles serões a comer doces teriam que passar a ser apenas meios-serões a comer meios-doces, porque afinal só ia ter dois conjuntos de dentes em vez de três.
Foi a partir dessa altura que eu, havendo até então ignorado por completo o bem-estar dos meus aparelhos de trincamento, passei a tratá-los da mesma forma que uma senhora de meia-idade abastada trata os seus caniches: Escovando-os todos os dias e dando-lhes banho com produtos especiais. A ração, essa, também é de requinte, porque já não deixo os meus dentes mastigarem coisas rascas.
No fundo, hoje em dia posso orgulhar-me de ter uma boca com pedigree e muito poucas, se não nenhumas, carraças.

Abreijo.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Friezas de estação.

Agora que o Verão se está a aproximar ou não, dependendo da altura do ano em que estão a ler isto , temos que discutir um assunto bastante sério e que preocupa muitas pessoas que, como eu, gostam de manter um certo nível de ordem social no seu bairro. Aproveito para chamar principalmente a atenção dos vendedores de gelados deste país, porque o que se segue diz respeito a alguns dos seus clientes.
Expliquem-me o seguinte: Quem é que, no seu perfeito juízo, recusa um gelado de cone em favor de um gelado de copo? Até há bem pouco tempo, costumava ver pessoas na rua a comer gelados à colher e tinha pena deles, pois provavelmente ter-se-iam dirigido a um estabelecimento comercial que só vendia gelados envoltos em plástico. Só que, ao que vim a saber, pelos vistos a maior parte dessas pessoas escolhe mesmo comer o gelado num copo, apesar de ter à disposição um cone de bolacha também ele comestível, ao contrário do copo de plástico que não dá jeito sequer para petiscar. Ainda assim, eu tinha um primo que era um bocado parvo e comia plástico. Tinha, note-se.
Quando vejo pessoas, como o meu primo, a pedir um gelado de copo tendo à disposição cones de bolacha, costumo perguntar-lhes se não tiveram infância. E elas, envergonhadas, como é óbvio, tendem a não me responder, ou a lançar-me apenas um ligeiro "Vá-se f*der, pá!" Gente estranha, esta. Mas tratam-me por você, e eu gosto de respeito. É que, havendo a hipótese de um cone de bolacha, é óbvio que as pessoas devem pedi-lo! Não o fazer é o mesmo que cortar definitivamente os laços com os tempos de juventude, o que eu, eterno imaturo, ainda não estou preparado para fazer. Pedir um gelado de copo é o mesmo que desejar ter uma vida sem sonhos, ou ir a uma feira medieval e os cavalos terem sido substituídos por trotinetas. Dá um outro aspeto visual, é certo, mas não é àquilo que estamos habituados.
Mais, o gelado de cone é amigo do ambiente! Não resta nada para contar a história. Já o gelado de copo é um vil poluidor, pois metade daquilo por que pagamos acaba no lixo. É dinheiro mal gasto. Aposto que quem faz isto também não tem paz de alma suficiente para colocar a embalagem na reciclagem, pois devem ser pessoas destroçadas no seu interior e eternamente mal com a vida. Se, em África, alguns meninos soubessem que nós andamos aqui a escolher comer um único produto pelo mesmo preço de comer dois produtos diferentes, dava-lhes para rir. Até chegar um leão, depois teriam que começar a correr. Rir e correr ao mesmo tempo não dá jeito. Pronto pronto, eu deixo de ser racista... Bem sei que nem todos os leões são africanos.
Sim, é verdade que os gelados de cone derretem e começam a pingar-nos para as mãos, obrigando-nos a lamber tudo à volta como uma actriz pornográfica em início de carreira. Também é verdade que não parecemos muito dignos quando o abocanhamos, mais uma vez, como uma actriz pornográfica em início de carreira. Mas são parte da nossa infância, tal como as actrizes pornográficas, e devíamos agarrar-nos a isso com todas as nossas forças. O gelado de copo pode ser mais prático, porque inclui uma colher, mas ao mesmo tempo não nos permite ser javardos. E a vida, no fundo, é feita de javardice. Nós próprios fomos concepcionados num clima de pura javardice. Era muito difícil a minha mãe conseguir engravidar só com uma colher.
Com tudo isto, concluo que existe um lugar reservado no Inferno para dois tipos de pessoas: Actrizes pornográficas já em fim de carreira e pessoas que recusam gelados de cone. E as primeiras, com jeitinho e alguma técnica, ainda se conseguem safar.

Abreijo.