quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Egoísmo patriota.

O português é um ser mesquinho. E não falo de nenhum português em particular, podem ficar descansados. As vossas vidas não me interessam. Falo, isso sim, dos portugueses no geral, aqueles que hoje em dia chamamos, tão afavelmente, de "tugas".
O "tuga" é aquele senhor barbudo e grisalho que está sempre na mesa escura do canto a reclamar de tudo e com tudo, assustando qualquer pessoa que se atreva a olhar na sua direcção. É aquele velho que fura as bolas de futebol que vão parar ao seu quintal, aquele sénior de quem ninguém gosta e com quem ninguém se dá. Não duvido que este tipo de portugueses até tenha uma faceta interior boa e generosa, mas não é um interior que se possa ver assim tão facilmente com uma qualquer lanterna de poucos watts.
No entanto, este bichinho da "tuguice" pode adoptar variadíssimas formas. De facto, o que me surpreende é que, apesar de nem todos os portugueses corresponderem directamente a esta imagem, todos têm alguns pontos em comum com o raio do velho, seja em relação a política, em relação ao clima e à temperatura, em relação ao futebol ou em relação... a acidentes internacionais "de grande porte". (E é aqui que entra a parte da galhofa e da boémia, em que eu digo parvoíces e vocês, supostamente, riem-se.)
Sim, o português - ou o "tuga", mais propriamente - é aquele ser capaz de desvalorizar todas e quaisquer catástrofes internacionais: sejam elas naturais, de acção humana ou, possivelmente, de origem alienígena. E o "tuga" continuará para sempre a depreciar tudo isso, a menos que - e isto é crucial - seja informado da existência de algum compatriota português entre as vítimas. Aí descamba tudo! Só nesse momento é que esse, até então, pequeno infortúnio em solo estrangeiro se torna numa calamidade merecedora de toda a sua atenção e compaixão. Ignore-se o número de vítimas, a quantidade de habitações demolidas, os litros de água salgada engolidos pelos sacrificados... Desde que não haja lá nenhum português pelo meio, minimiza-se o cenário e a situação haverá de se resolver por si. Que choramingas, esses desalojados...
E o que me assusta não é o facto de o "tuga" pensar assim. Dele eu já esperava isto. O que me mexe aqui com as entranhas (sim, afinal não sou assim tão oco) é o facto de essa também se estar a tornar na primeira preocupação dos órgãos de comunicação social. Pode ter sido um acidente de extremo aparato, mas ao menos nenhum português se magoou; e é isto que se considera ser importante noticiar em primeiro lugar, ainda antes de se saber sequer o que realmente aconteceu. A ordem de ideias é a seguinte, exemplificada por uma conversa entre dois típicos "tugas":

- Oh lá... uma catástrofe enorme ceifou a vida de milhares de pessoas naquele país que ninguém sabe muito bem onde fica. Que giro...
- E havia por lá algum português?
- Não, felizmente.
- Ah, menos mal... Dá-me aí esse agrafador.

E pronto, volta-se à leviandade. Mal esta última informação é divulgada, o "tuga" volta a emborcar a cerveja pousada na tal mesa do canto, com medo que entretanto as bolhinhas lhe fujam todas da garrafa. Isso sim, seria uma catástrofe!
A presença de um colega "tuga" torna todo e qualquer assunto merecedor da maior das atenções por parte do português comum. É por isto que defendo a necessidade da presença de um português em todo o tipo de assuntos que sejam merecedores de atenção: seja no campo da política, da economia, da ciência ou da criação da perdiz vermelha em cativeiro. Não gozem, é um assunto sério.
Enfim, muitas coisas explicam o porquê de Portugal não brincar muito com os outros meninos. Eu apenas apresentei aqui um dos aspectos que mais me apela, na condição de... parvo. Se o vosso objectivo era serem elucidados acerca de condutas económicas em contexto de crise ou do estado da balança comercial do país quando comparado com as dos seus congéneres europeus, então ou não costumam vir aqui ou estão infinitamente à espera que eu me torne numa pessoa séria.
Em qualquer dos casos, aconselho-vos outras leituras.

Abreijo.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Carequices.

Não sei, eu não sei qual é o meu estado de espírito neste momento. Percebo que isto vos possa assustar, até por saberem que eu sou um ser profunda e persistentemente indignado. Aliás, a minha mãe conta-me que quando nasci e o doutor me deu uma palmada para chorar (eu, não ele), eu franzi o sobrolho, apertei a gravata e processei-o por negligência médica. Mas hoje não.
Hoje apresento-me perante vós mergulhado num mar de confusão e incerteza. Não é bem um mar, é mais um... tupperware, ou assim; mas bem cheio. "Mas porquê?", perguntam vocês já visivelmente preocupados com o meu bem-estar emocional. Ora, porque estamos a ficar sem pêlos. É verdade meus caros, anos e anos de evolução estão a fazer-nos o mesmo que faria uma banda de cera, só que num processo muito mais lento e um bocado menos doloroso. Portanto, sendo que o Homem é descendente do macaco - apesar de muitos deles insistirem em manter ainda o grau de parentesco -, vemos que, gradualmente, este tem vindo a perder território no que toca a zonas do corpo populadas por guedelha.
E é aqui que entra a minha incerteza, a minha perplexidade e a minha expectativa (estou cheio de sentimentos, hoje): O que devemos esperar para as gerações vindouras, em termos de superfície capilar? Nos filmes futuristas de ficção (que aliteração tão bem conseguida) vejo apenas seres humanos como hoje em dia os conhecemos, que apenas se diferenciam devido às suas roupas extravagantes, dignas de um espectáculo do La Féria. No entanto, e devo ser eu o único estúpido a pensar nisto, seria de esperar que, com o avançar do tempo, também a nossa calvície corporal registasse um aumento significativo, que aparentássemos ser uns "recém-nascidos do espaço sideral" mas daqueles que não se vomitam depois do biberão do lanche.
E é aqui que entra o sentimento de confusão: será este acontecimento positivo para o ser humano? Ou, por outro lado, será que necessitamos de pêlos para orientarmos a nossa vida presente e futura, abanando o cabelo ao sabor da falta de gravidade dentro das nossas naves espaciais? Os mais peludos, que não gostam de o ser, dir-me-ão que esta ordem natural das coisas será positiva, porque deixaremos de ter que aparar aquelas zonas especiais para agradar ao nosso parceiro intergaláctico. No entanto, os pêlos mostram-se essenciais na altura de conquistar, precisamente, esse parceiro. Imaginem, por exemplo, um Zezé Camarinha sem cabelo (e, portanto, sem gordura animal a penteá-lo), sem bigode e sem pelos no peito. O que seria de um espécime destes?! Sim, continuaria a usar o fio-de-ouro... mas sem pêlos onde se prender não é a mesma coisa. A minha avó tem uma opinião bem formada sobre o assunto, ao que ela diz que: "Homem que é homem tem pêlo na venta!". Talvez isso explique os vestidos de noite que ela ainda hoje me oferece...
E a confusão que eu sinto neste momento não se fica por aqui! Até porque já começo a sentir também uma certa vontade de urinar... Então se o processo de "descabelização" do corpo humano é sinónimo de evolução, quererá isso dizer que os carecas de hoje são mais evoluídos que as restantes pessoas? É neles que devemos depositar as nossas esperanças de um futuro melhor? Não lhes bastava que fosse dos carecas que elas gostam mais? E agora como é que eu encaro o meu tio Francisco, careca há já uns bons anos? Saúdo-lhe com um bom-dia ou ajoelho-me aos seus pés?
São tudo perguntas que deverão ser respondidas a seu tempo, porque está visto que o comum ser humano de hoje em dia não está preparado para se lhes formular uma resposta. A não ser o meu tio Francisco.
E não vale usar a depilação e as máquinas eléctricas como alternativa, meus amigos! Não conseguem enganar o sistema. Só se podem tornar seres evoluídos a partir do momento em que o vosso corpo começa a rejeitar crescer pêlos. É pena é que isso normalmente só aconteça a partir dos 70 anos, quando começa a entrar o Alzheimer e as pessoas se esquecem de que já está na altura de se tornarem nos seres humanos mais evoluídos.

Abreijo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Televisão e sofá.

... e se não gostares, vai lamber as glândulas mamárias da tua avó!
Peço desculpa, estava aqui a acabar uma conversa com o meu primo Jorge. Também podiam ter batido à porta primeiro, não custava nada. Enfim...
O tema de hoje é-nos trazido pela minha elevada capacidade de - e grande formação em -... estar sentado. Quer dizer, não é bem sentado, é mais aquela posição em que muitas vezes nos encontramos depois de algum tempo sentados no sofá e nem nos lembramos como chegamos lá. Já me me encontrei muitas vezes a fazer Yoga em cima das almofadas do sofá, mesmo antes de saber sequer o que isso era. Se hoje já o sei? Não particularmente, apenas sei que envolve calças muito apertadinhas. Mas deixemo-nos disso.
Estava eu, muito gostoso, a fazer zapping, aquilo que todos os portugueses adeptos desta prática da preguiça costumam fazer (e nem estou a falar do zapping, estou a falar da preguiça em dizer até "mudar canais"), quando de repente dou de caras com aquilo que me pareceu ser a nova longa-metragem do nosso Manoel de Oliveira, cuja própria duração de vida poderia dar para uma longuíssima-metragem, daquelas que nos fazem ter que sair da sala de cinema e ir urinar umas três vezes. Qual não é a minha surpresa quando reparo que estou, na verdade, a ver um canal infantil, e que aquilo que eu pensava serem pessoas reais - não confundir com a Lili Caneças -, eram na verdade desenhos animados super-ultra-hiper-mega reais, daqueles que até têm borbulhas na cara e às vezes até as espremem, caso os guionistas não tenham muito material para escrever. Não quero que pensem que estou a exagerar, meus ursinhos de pelúcia; são desenhos animados que conseguiriam ultrapassar o nível de realismo até do choro da Fátima Lopes - que, até ver, é humana - nos seus programas da tarde.
E perguntam-me vocês, caso consigam obter o meu número de telefone através das páginas amarelas: "Qual é o problema de haver desenhos animados cada vez mais 'reais'?" Adoro quando falam comigo directamente, faz-me sentir especial. Problema, necessariamente, não será, mas perde-se um bocado o propósito. Ainda sou jovem, mas lembro-me que no meu tempo os desenhos animados ainda eram... desenhados. Ah, e animados! Hoje em dia é tudo computadorizado, feito em três, quatro ou cinco dimensões (e que mais hajam), com efeitos visuais e de sombra que copiam a realidade, com personagens politicamente correctas e cenários circunspectos, e onde um rato espetar um martelo na cabeça a um gato já não é considerado entretenimento. Que ultraje... A animação, essa, também se esvaiu um bocado com essa "filtração" de tecnologia, nem que seja pela falta das cores vivas dos desenhos, hoje em dia substituídas pelas cores aborrecidas da realidade. Se é para ver a realidade, então desligo a televisão, ora!
Mas a questão é muito simples, e aposto que ninguém se vai dirigir a ela com a seriedade necessária: Como querem que seja preguiçoso se até me aborreço com aquilo que me é suposto divertir?! Se quisesse ver desenhos animados em grafismo mega-real, ia a um lago e vestia um dos patos que por lá andasse com uma roupa de marinheiro. Depois, dava-lhe o nome de Donald e imaginava-lhe um impedimento de fala característico. Se quisesse ver um Rato Mickey real, ia aos arquivos dos tribunais portugueses onde metade dos casos em espera já foram degustados pelas grandes ratazanas que por lá andam. Depois era só adicionar, mais uma vez, a vozinha irritante.
No entanto, o problema é justamente esse: não quero "ir" a lado nenhum! Quero ficar no sofá de cabeça para baixo e joelhos na nuca enquanto outros me divertem, e eu me vou sentindo como um verdadeiro imperador romano perante a sua plebe, mas sem a parte da saia.
Será pedir muito?

Abreijo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Fru-talidades.

"Senhoras e senhores, meninos e meninas, cães e outros bichos, fechos éclair e alfaces temperadas:
Bem-vindos ao circo que é este Mundo!"
E ainda bem que se fala em alface, porque o tema hoje é justamente... fruta. Pronto, podia ter sido uma conexão melhor. Peço desculpa.
Se o leitor me conhece - e se me conhece pessoalmente, os meus pêsames -, saberá que eu sou um indivíduo. Mais do que isso, sou um indivíduo que odeia injustiças, principalmente quando causadas por pessoas soberbas e que se armam em Michael Phelps da piscina que é o quotidiano quando nada mais são do que peixinhos dourados do aquário que é a sua vida privada. E se há algo que me irrita mais do que pessoas soberbas, são frutas que não sabem estar. Frutas que não sabem viver em comunidade "frutífera", que aproveitam toda e qualquer oportunidade para se engrandecerem em detrimento das outras. E sem mais delongas (palavra gira...), apresento-vos a fruta em questão: o morango. E vêm vocês com as queixas do costume: que o morango é bom, que o morango é saudável, que o morango até nem tem caroço, que o morango conduz um descapotável para ir passear aos Domingos à tarde... Não quero saber! O morango, meus amigos que eu provavelmente nem conheço, é, para todos os efeitos, má-pessoa... ou fruto, vá.
E passo a explicar: na sociedade de hoje, qual é a fruta cujo sabor é mais conhecido? Serão a maçã ou a laranja, produtos tão comuns e de relativamente fácil acesso à maior parte das pessoas? Será a banana, já mais difícil de encontrar mas mesmo assim muito comum, e até popular, no mundo dos macacos e dos controladores de qualidade das empresas de preservativos? Não, claro que não! É o morango que faz questão de arrebatar tudo o que é produto, comestível ou não, e meter-se lá dentro, obrigando-nos a levar com o seu sabor! Sim, eu sei que esta última parte foi um bocado badalhoca, mas a verdade tem que ser dita, meus caros.
Quem foi que autorizou o morango a ser o sabor standard de (quase) tudo o que existe? Porque é que os iogurtes, os gelados, os bolos e os pensos higiénicos (a julgar pela cor, nunca provei...) têm que saber a morango e não podem simplesmente saber a iogurte, gelado, bolo, ou... isso? Quem disse ao morango que ele era mais do que as outras frutas, que merecia mais reconhecimento do que os seus pares? É uma nova revolução das frutas que queremos, tal como a antiga, e provavelmente já esquecida, "Tomada da Frutaria de '62"?
A única razão pela qual poderia sequer pensar em nutrir o mínimo de respeito pelo morango prender-se-ia com o facto de, apesar da sua pequena e fraca estatura, possuir uma enorme capacidade de persuasão. De que outra forma conseguiria convencer todos os produtores de... coisas que o seu sabor era o mais adequado para as suas... coisas? De facto, o morango é aquele tipo de fruto que, num confronto directo com um ananás, por exemplo, bastaria este último encostar-se a ele e teríamos puré de morango com uma pitada de fanfarronice. Mas, no entanto, todos parecem babar-se perante a hegemonia "moranguista" que por aí reina! E quando se começa a babar, é sinal que algo não está bem. Perguntem ao meu tio-avô.
Deixem-se de favoritismos, pelo menos no que toca à fruta. Não deixem que seja uma só fruta a possuir o monopólio do paladar humano, dêem oportunidade a frutas emergentes, e até mesmo às antigas, de fazerem o seu papel no panorama dos sabores. Dão dinamismo aos vossos produtos - no meu caso, sinceramente, já estou tão enjoado de coisas de morango que já nem as consumo -, e evitam tragédias e mal-estar no cesto da fruta de muita gente.

Abreijo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Separatismo saudável.

No outro dia, a minha mãe virou-se para mim e perguntou: "Filho, gostas de sopas de letras?"
... mas calma, que isto ainda não acabou. Até não desgosto de sopa de letras. Se levar à boca uma colherada com algumas sete letras, sou até capaz de as embuchar por ordem alfabética, e ainda cuspir as que estiverem danificadas ou incompletas. Isto só para verem o trabalho de língua e palato - não confundir com Malato, que esse até consegue fazer contas de dividir com qualquer tipo de massa, desde que esteja cozinhada - deste menino.
E já que falamos - falo eu, que vocês aí aposto que nem se mexem - em contas, vou então introduzir o tema de uma forma simples e serena (até queria introduzi-lo de uma forma divertida e sensual, mas quando mandei vir uma carrinha de nove lugares com cinco palhaços e quatro strippers acabaram por ficar todos na berma da estrada a brincar com o macaco de mudar pneus): tal como não desgosto de sopa de letras, também chego a ser grande fã das letras em si. Caso contrário, estariam muito provavelmente a ouvir as minhas divagações por entre duas (ou mais) cervejas na mesa mais recatada do Café do Tolas, em vez de as estarem aqui a ler. Gosto, de facto, de letras, da sua conjugação, das formas engraçadas que elas têm, da sua fonética, aqueles sons estranhos que elas me obrigam a produzir oralmente, e que quando conectados quase fazem uma melodia digna de uma banda sonora de um filme pornográfico, tal é a excitação que provocam em mim. Pronto, eu acalmo-me...
Também até nem desgosto de números, e sou até menino para, num dia solarengo, fazer uma ou duas contas de subtrair sem ter que sacar da calculadora que, curiosamente, só funciona a energia de raios solares. Desde que não me peçam para dividir, por mim está tudo bem (e nem é por eu ser uma pessoa egoísta, é mesmo por nunca ter percebido como funcionam aquelas contas).
O problema, meus caros, é quando decidem misturar as duas coisas. Aí é que a sopa azeda! Aí é que não há calculadoras que me valham! E o que me irrita mais é que a mistura só se dá por vontade dos números, porque as letras estão no seu lado quietinhas, a jogar Scrabble e a beber umas frescas. Na escola até me ensinaram que se deve escrever os números por extenso, pelo menos os mais pequenos, que é para poupar caneta (a meu ver). Até nisso as letras evitam entrar no território inimigo. Mas os números não, equipam-se com as suas metralhadoras quânticas e os seus capacetes de guerra binários e infiltram-se no território das letras, raptando as que bem lhes apetece para mais tarde usarem em fórmulas matemáticas e outras práticas horrendas que tais. MAS COM QUE DIREITO, pergunto eu em maiúsculas que é para chamar a atenção do leitor mais distraído?
A forma mais comum de enumeração que encontramos na escrita chega a ser em numeração romana, que mais não é do que a conjugação de diferentes letras para interpretar números. Até nisso as letras se mostram menos conflituosas: para evitar animosidades, arranjaram forma de transcrever os números sem sequer ter que lhes tocar. É um verdadeiro escândalo ver alguns números passar incólumes nas ruas e felizes da vida, sabendo muito bem aquilo por que fizeram passar as pobres das letras; muitas delas tendo recorrido à auto-mutilação - veja-se o caso do pobre "y", que de normal tem pouco - tal foi o trauma que lhes ficou.
Devíamos aprender com as letras, seguir o seu exemplo de civismo e respeito pelo próximo! Por exemplo, se não queremos conviver com outras culturas, em vez de as tentar erradicar podemos sempre adaptá-las à nossa própria linguagem e - imitando o que as letras fizeram em relação aos números - referir-nos a elas recorrendo a sólidos geométricos, ou a faixas do CD Best Of da Rute Marlene.
Fica a dica.

Abreijo.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Estranhezas.

Vocês são feios, tirando a menina aí à esquerda que eu não me importava de me esforçar por fazer feliz. Então, ora bom dia!
Vamos ao assunto, propriamente dito: Os meus pais são estranhos. E nem falo disso pelos genes que me transmitiram, que obviamente têm muito que se lhes diga, mas sim pelo facto de os ensinamentos que me têm vindo a propagar serem um tanto ou quanto incongruentes. Digo incongruentes porque, caso ninguém tenha ainda reparado, é uma palavra muito gira e que, ao mesmo tempo, me faz parecer inteligente. Também o digo por ser verdade: os meus pais, quando querem, são uns verdadeiros ovos Kinder de surpresas inúteis; vocês sabem, como aqueles bonecos da treta pintados pela mesma pessoa que faz a maquilhagem da "Lady" Betty Grafstein (cuspi-me todo a dizer isto em voz alta) todos os dias há mais de três séculos, quando o que realmente queríamos era um daqueles bonecos capazes de envergonhar os móveis do (da?) IKEA em termos de dificuldade de montagem.
Mas não pensem que os vossos pais não fazem também parte deste arraial, porque sabem bem que tudo o que escrevo também a vós vos diz respeito. Digam-me: quantas vezes seguiram à risca a regra dos vossos pais para não darem conversa a estranhos? (A Maddie, não conta; ela nem teve voto na matéria.) Se me disserem que sempre cumpriram com essa promessa, então estar-me-ão a mentir. E aí o problema já não é dos vossos pais, é mesmo por vocês próprios serem más pessoas.
Se são como eu, o problema ainda mais se agrava. Na condição de filho mais novo, era eu quem realizava todas as pequenas tarefas relacionadas com o lar: era eu quem ia comprar duas nabiças e três pacotes de leite à loja do fim da rua, era eu quem ia a casa do vizinho que ninguém sabia ser pedófilo (afinal, quem naquela altura desconfiava do padre da paróquia?), era eu que ia à costureira ver se o xaile de renda da minha avó já estava pronto, visto que ela tinha tirado uma semana de férias do tricô para ir com o meu avô ao Salão Erótico de Lisboa, não como espectadores mas como espectáculo principal (absorvam lá essa imagem mental). É claro que em todas estas pequenas "voltinhas" eu teria inevitavelmente que me dar com pessoas desconhecidas. Que legitimidade tem a dona Faustina da frutaria para meter conversa comigo quando o Armindo "Drogado" nem podia oferecer-me um daqueles rebuçados especiais dele, parecidos àqueles que o farmacêutico me tinha vendido no dia anterior para curar a infecção recorrente da minha avó nas zonas baixas derivada das suas semanas de férias? Porque é que eu podia responder ao condutor do autocarro quando me perguntava qual o meu destino e nem podia dar bola a pessoas em alguns sites da Internet que tão prontamente me ofereciam brinquedos e um frasco de Vaselina se nos encontrássemos no parque infantil mais próximo? Isto é ser-se preconceituoso, meus amigos. Nos dias de hoje, já não se justifica.
Se eu seguisse as instruções dos meus pais à risca, a dona Faustina ficaria a pensar que os meus pais tinham um filho retardado (o que não é completamente mentira), ou que eu nunca casaria com a sua filha Benilde por ser demasiadamente tímido; seria capaz de ficar um dia inteiro a dar voltas no autocarro, porque a campainha estava avariada e eu não podia falar com o condutor para o avisar que estava perto da minha paragem.
O meu conselho para qualquer criança que tenha pesquisado "sexo homem + mulher" no Google e esteja acidentalmente a ler este texto é, então, para não se acatarem no que toca a dar conversa a desconhecidos. Quem sabe, ainda fazem amigos para a vida! E a verdadeira amizade não se mede em gramas de cocaína no bucho.

Acabando com os agradecimentos,
Abreijo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Exclusões de estação.

Sempre ouvi dizer que a vida era injusta, e nunca entendi bem o significado desta afirmação. Quer dizer, é claro que também achava injusto ver muitas vezes na televisão os povos asiáticos a plantar arroz durante todo o dia e serem só africanos a comerem-no, à tigelada. Pelo menos foi o que deduzi das imagens transmitidas... televisão não é o meu forte, principalmente a portuguesa.
Mas num sentido mais profundo, só muito recentemente percebi a profundidade do significado de injustiça. Foi agora mesmo, vá, ao deparar-me com uma problemática à qual nunca tinha ligado muito, mas que todos os dias me aflige: o fosso entre a quantidade de privilégios do tronco e das pernas. Isto é...
Está frio! Esta afirmação nenhum português que nunca tenha emigrado para as regiões Norte pode negar. E estando frio, as pessoas têm uma tendência para vestir mais roupa, para brincar nus debaixo dos cobertores com os seus Action Man's ou, até, para despejar por cima de si umas quantas sopas de nabiças a ferver, até que a pele fique tão dormente que deixam de sentir o que quer que seja.
Para os dois últimos casos, desejo a melhor das sortes nos seus futuros próximos, e que tudo lhes corra pelo melhor apesar das circunstâncias mentais. No entanto, quem decide optar pela primeira medida depara-se com um paradoxo enorme que incide no modo como encaramos as roupas, hoje em dia.
Senão, vejamos: está frio, vou vestir umas cinco camisolas, dois gorros, umas luvas, e um cachecol e só não espeto aqui uma máscara na face porque já fizeram um filme sobre isso e o rapaz pelos vistos comia pessoas, e era desagradável para elas. E as pernas? O que fazemos para proteger as pernas, meus amigos? Eu não consigo ter frio só num sítio, normalmente quando tenho é em todos. Então como fazemos? "Ah, vestimos um par de calças." Sim, mas isso é usual, porque se não o fizéssemos íamos para a Disney trabalhar o dia todo com um fato de marinheiro e um bico amarelo. E agora, que outra solução há? Podemos sempre vestir um kilt, mas o verdadeiro truque da sua utilidade está no whisky que bebe quem o usa. Esse sim, aquece o corpo todo. Quando éramos pequenos tínhamos um truque porreiro, que era o urinar nas calças. Hoje em dia, alguns de nós já mais crescidos, parece-me de mau gosto estar a usar esta cartada, não só porque já a usamos nos nossos tempos de glória e convém inovar, mas também porque, vá-se lá saber porquê, a partir de uma certa idade o acto já não se revela socialmente aceitável.
Então, o que fazer? Podemos usar três pares de calças quentinhas e gozar com as pessoas que passam por nós na rua só com um, mas aí estar-lhes-íamos a dar legitimidade para nos chamar estúpidos. E com razão. Para além de que existe toda uma problemática característica aos homens que faz com que esta solução se torne inviável e até um bocado desconfortável.
Podemos também aderir àquela brilhante ideia de algumas mulheres de que as meias-calças ou as leggings são igualmente quentes e cómodas, mas prefiro nem começar nesse assunto, que me dá voltas ao estômago. Para além de que, e outra vez relativamente à maior parte dos homens, essa solução não seria agradável de todo, por razões várias e de conhecimento geral.
Então qual a solução? Hoje em dia ainda não se inventou a tecnologia necessária para dar uma resposta a esta questão. O melhor que podemos fazer é enfiar nos pés uns três pares de meias tricotadas pelo elemento mais idoso da nossa família, e deixar a zona das pernas propriamente dita à mercê das temperaturas, esperando que não caiam com o frio.
Ou então ler um livro à luz da lareira com uma manta em cima das pernas. Mas já ninguém lê livros, hoje em dia.

Tak,
Abreijo.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Ponto sensível.

"Oláááááááá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"
"Tudo bem?!?!?!?!?!?!?!?!????"

É isto. É isto, minhas meninas e meus meninos. É isto que vos FAZ ser meninas e meninos.
Não me levem a mal, mas: levem-me a mal! Pode ser que se o fizerem, se sintam realmente incomodados convosco próprios.
Há alguns anos atrás, não há tantos como me orgulharia de poder dizer, estava eu na primária e tive uma professora. E bastou-me. A partir daí, passei a esforçar-me por usar uma pontuação correcta, já que, sendo eu um ser humano, seria necessário que tal aprendesse para, vá lá, comunicar com os outros seres, também eles humanos ou não. E o que eu aprendi, embora pareça um bocado básico para muitos de vocês, parece-me ser o mais acertado... Porque, vejamos: o ponto de interrogação ("?"), por exemplo, serve para, lá está, fazer uma interrogação. Para que servem três pontos de interrogação? Para identificar a questão como uma das grandes questões do nosso tempo? Não. Servem para identificar quem os escreve como "alguém". Quem? Não sei, nem me interessa.
Não estou com isto a querer dizer que não apoio o convívio entre os pontos de interrogação. Longe de mim. Até se me aquece o coração ver uns cinco pontos de interrogação a fazer uma churrascada em casa de um casal de pontos de exclamação ("!"). Mas isso são actividades que eles devem fazer nos seus tempos livres, quando não estão a ser usados para transmitir ideias.
De facto, não é usando tais cinco pontos de interrogação que uma pergunta se torna mais pergunta do que as outras. Nesses termos, a humanidade pode-se orgulhar de ter criado algum contexto de igualdade. Vinte "?" no fim de uma frase também não a torna mais importante, nem significa que há mais conceitos questionáveis nela do que nas outras.
Paralelamente, não existem exclamações mais exclamativas do que outras. Toda a gente exclama, e até aceito que haja quem exclame mais do que outros, mas não é a acumular pontuação que se demonstra isso na escrita. O acúmulo de pontuação pode parecer inofensivo, nos nossos dias, mas pode vir-se a tornar num fardo para as gerações vindouras. Da finitude do petróleo todos falam, mas quando toca a pontuação é tudo a esbanjar como se fossem o Papa. Ainda só conheci um ser humano pro-activo nesta questão: só José Saramago poupava pontos finais como ninguém. É claro que às custas de muitas vírgulas, mas ao menos já foi um começo e um exemplo. Só à conta deste grande homem, as próximas gerações já podem contar com mais alguns milhares de pontos finais. Agora imaginem se todos nos esforçássemos de igual modo, quantos pontos não se poupavam para que os vossos netos possam ler histórias sem ter que suster a respiração ao longo de cinco linhas.
E quem fala em pontos finais, fala também na eterna dúvida: as reticências. As reticências permitem-nos questionar: e que mais? De facto, as reticências são o único elemento de pontuação em que se deve até incentivar ao convívio. Mas, claro, em doses moderadas. Um convívio de um único ponto final é estúpido. Um convívio de dois pontos finais mostra-se insuficiente; há uma troca de ideias entre um e outro, mas não passa disso. Um convívio de três pontos finais é perfeito, permite uma situação de rodagem de ideias, em que nenhuma é descriminada. Um convívio de quatro pontos finais já é demais, já é abusar da quantidade de informação que cada um dos pontos pode absorver, e é propício à criação de grupinhos no seio da actividade. E o mesmo se aplica aos convívios de sete e de 23 pontos finais. Estes são apenas ridículos, ninguém se entende.
É por isto que "Hum............" não quer dizer que esta pessoa está mais pensativa do que as outras, porque se pensasse realmente com tanta força veria que escreve de forma parva e relativamente estranha.
E eu até sou completamente a favor da parvoíce e da estranheza relativa, desde que sejam escritas com rigor.

Neseke,
Abreijo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ode a... isto.

O que nós perdemos! Ai, o que nós perdemos em tão pouco tempo... É pena, porque antigamente é que era!
É verdade, tenho muita pena de fazer parte desta geração, deste bando de selvagens e, portanto, futuros moribundos. O que vale é que, ainda hoje, vivemos em condições fantásticas, somos um exemplo civilizacional para qualquer um, seja planeta, galáxia ou universo constituído por ervas aromáticas.
Tem toda a razão, senhor de camisa xadrez abotoada até ao pescoço: no seu tempo é que era! Foram tantas as boas decisões que tomaram que hoje em dia vivemos no paraíso.
Sim, senhor que se recusa a usar calças de ganga e ainda hoje usa calça de linho: não devemos usar coisas práticas, devemos dar o exemplo sobre o que é o bem-vestir, a rigorosidade, a formalidade. Afinal, temos visto que tudo isso tem vindo a dar resultados fantásticos... pelo menos no que toca às aparências.
Concordo completamente, senhora acamada e com uma cornucópia no ouvido: antigamente é que era bom, e viviam bem! Estas meretrizes, que andam por aí a arranjar trabalhos, e a pensar por si próprias... Que vergonha, que vergonha! Quem lhes dera a elas ficar em casa fechadas todo o dia e a tratar do lar. Afinal é o que os peixes fazem nos aquários e nunca os vimos a queixar-se.
Palavras sábias, senhor com casaco de lã pelos ombros e óculos na ponta do nariz: que vergonha que é ouvir palavrões pelas ruas, estados puros e à flor-da-pele da indignação e dos sentimentos de injustiça que estes miúdos de hoje em dia deixam escapar pela boca fora. Onde é que já se viu pessoas a dizerem o que lhes apetece e os palavrões que querem? Parecem vindos dessa má-remessa Iluminista, de liberdade do indivíduo e da sua afirmação pessoal. Sim, essas ideias estúpidas pelas quais se lutaram durante séculos. Que inutilidade, que elas são! Afinal, que têm eles para se queixar? Quando você era novo, fez questão de deixar tudo bem e certinho para que eles não tivessem razão de queixa...
Muito bem, senhora vestida de preto e, óbvia e automaticamente, ainda muito triste pelo falecimento do seu ente querido: que desplante tem esta cambada de animais, de pervertidos, que são capazes de se mostrar completamente uns aos outros E COM AS LUZES LIGADAS! Que vergonha! Passou-se de encarar o sexo pela única utilidade que ele tem, o de fazer filhos para continuar a remessa, a encará-lo como meio básico e intrínseco ao ser humano de prazer. Sexo por prazer?! Que embuste ideológico! Saudades de quando a pornografia era tão simples quanto mostrar um tornozelo. Aí sim, eram tempos de sensualidade e de transparência humana devidos. Não é como hoje, que se atiram para cima uns dos outros e nem têm a decência de criar uma família para depois terem 12 filhos, como deve ser. Assim, não haveria dinheiro para mandar nenhum dos 12 para a escola e deixava-se, ainda assim, que eles tomassem as decisões sociais que quisessem para o futuro. Foi isso que aconteceu até agora, vá-se lá dizer que nos encontramos num mau estado por causa dessas mesmas decisões...
Sim, senhor com uma pala no olho e sonhos suicidas durante a noite: somos uns meninos, uns verdadeiros maricas, porque nem passamos pela vida militar! Que vergonha, deixarem de se alistar num aspecto tão importante da sociedade e que tantas alegrias trouxe para a mesma como é a guerra. Que pena que você deve ter nossa, por defendermos cada vez mais a paz e a desarmação mundiais, algo que nem contribui em nada para o bem-estar das pessoas. Devíamos ter passado pela guerra, para enrijar as nossas personalidades! Onde é que já se viu recusar a guerra e os propósitos completamente racionais e devidamente fundamentados pelos quais ela se rege e preferir rumar em direcção da paz e do não-massacre de milhares de vidas e de cidadãos livres.
Tanta razão que todos vocês têm! E, no entanto, estamos no estado em que estamos... Que paradoxo completamente erróneo é este? De que bruxaria malévola e completamente atroz estamos a ser vítimas? Vocês fizeram tudo bem, então porque raio é que chegamos tão ao fundo, como agora nos encontramos?!
Mas que raio... sem dinheiro, com uma completa desorganização política, social e económica, com poucos recursos naturais, com cada vez mais seres vivos a extinguirem-se, com um buraco na camada de ozono do tamanho do próprio Mundo, com uma verdadeira sobre-população ainda por cima infestada de putos mimados e resmungões...
Se deixaram isto tudo limpo e como é devido, no vosso tempo, porque raio é que chegamos a esta situação?

Efharisto,
Abreijo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cepticismo intemporal.

Chegou o vosso Rei e Senhor, aquele que vos quer e mais ninguém!
Peço desculpa... estive numa tarde de caça com os meus grandes amigalhaços Nuno da Câmara Pereira e João Portugal e devo ter apanhado alguma constipação, ou assim. Eu cacei duas pessoas com carreiras e sonhos falhados, eles não caçaram muito porque, diga-se, não tenho muito por onde se pegar... ainda.
E começam vocês outra vez com as vossas perguntas de 'chacha': "Diogo, tu que és tão interessante, bonito e com muito para oferecer quer no plano intelectual como no plano da higiene na casa-de-banho, porque razão dizes que não tens muito por onde se pegar?"; Primeiro: odeio bajuladores. Parem com essa treta; Segundo: porque sou ainda um mero estudante, ainda não cheguei ao ponto de decidir defender a monarquia, ou de enveredar por uma carreira de artista pop, ou outro qualquer sonho utópico desse tipo.
Apesar disso, a vida de estudante tem, no entanto, vindo a dar-me material suficiente para conseguir formular algumas teorias próprias, que se ainda houver gente decente neste Mundo, decerto serão reflectidas e adoptadas no futuro, em prol de um Marte melhor. (Sim, no futuro vamos colonizar e mudar-nos para Marte. Ser tipo o Vale e Azevedo, mas... em bom.)
Falo, então, da frequente e continuamente utilizada expressão "...era uma ideia/um projecto muito avançado para a época". Não me interpretem mal, também acho que esta expressão dá um ar de conhecimento, de inteligência, de construção ideológica aceitável, se não fosse completamente estúpida e irracional. E, como sabem, racionalismos é comigo!
E é uma expressão que toda a gente usa, sem ninguém pensar realmente no que está a dizer e passando a demonstrar, assim, e ao contrário do que desejaria, uma estupidez e cegueira profundas. Utilizadores de tal expressão, digam-me: o tal sonho de construir uma máquina do tempo já foi, no vosso mundo, concretizado? Se não, então por favor deixem de dar desmérito aos ideólogos, aos pensadores, às pessoas que efectivamente usam expressões que querem dizer alguma coisa. Ora, se dizem que uma ideia é avançada demais para a época, então isso quer dizer que quem a teve é um prodígio? Que é vidente? Que é uma espécie de Exterminador Implacável Formulador de Ideias Futuristas vindo do... portanto, futuro? Se uma ideia é formulada numa dada altura, é completamente estúpido afirmar-se que ela é "avançada demais para a época", pois, e sobre isto tenho uma muito bem-fundada certeza: ELA FOI FORMULADA NA PRÓPRIA ÉPOCA!
Então como se deve encarar este acontecimento, acusar essa pessoa de ser uma bruxa e queimá-la numa fogueira agarrada a um poste (a pessoa, não a fogueira), brincadeira muito praticada pelas crianças nascidas por volta do século XVII? Deve-se assumir que essa pessoa fez toda uma viagem desde o futuro, sabendo perfeitamente como estão altas as portagens nas auto-estradas multi-dimensionais para dar a boa-nova ao Mundo sobre um método inovador de cozinhar arroz sem ter que queimar os nós das mãos? Não! Se a ideia foi formulada na altura em que se comiam vacas cruas, então não pertence à altura em que se come a Rute Marlene gratinada e numa caminha de batatas. Pertence, lá está, à altura em que se comiam as tais vacas cruas, com o rabo ainda a abanar as moscas.
E pode haver quem diga: "Ah, coiso e tal, podia ainda não haver na altura os métodos, instrumentos e técnicas necessárias para levar a ideia avante", e de notar que quando digo 'avante' estou mesmo a falar no sentido literal. Calma, senhor Jerónimo.
Ora, se assim é, que tal tentarem falar com o próprio pensador que formulou a teoria, em vez de refutar e desacreditar o pobre coitado de imediato? Penso que ele, mais do que qualquer outra pessoa, terá uma boa concepção estrutural que pode vir a ser útil. Não me parece que a ideia final lhe tenha surgido por obra e graça do Espírito (sim, trato-o por Espírito). Não que não acredite em tal coisa, apenas acho que não é da natureza do Espírito Santo querer incentivar as pessoas a serem estúpidas e, até, hereges ao ponto de usarem expressões como "... é muito avançado para a época".

Vinaka,
Abreijo.