quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Enrolanços pouco higiénicos.

Vai ter de ser. Epá, desculpem, mas vou mesmo ter de falar sobre este assunto. É que uma pessoa depara-se com esta situação todos os dias, e não a pode ignorar para sempre.

Rolos de papel higiénico. Calma, não se preocupem… Prometo não ser demasiado escatológico, até porque não tenho nada contra o papel higiénico em si. Tenho, isso sim, contra o rolo!

No geral, concordo com o conceito: enrolar o papel higiénico dá muito jeito de um ponto de vista prático e, até, de um ponto de vista lúdico. Que o diga o meu cão, que se diverte à brava a desenrolá-lo. Mas, de um ponto de vista do aproveitamento, o rolo de papel higiénico é só uma ideia estúpida. Pelo menos, da forma como é feito atualmente...

Ter um buraco no meio do rolo dá jeito, sim senhor. Não digo que não. Mas era preciso fazer um buraco tão grande? Onde é que vão enfiar o rolo, num pinheiro? São campistas com problemas intestinais, vocês? É que, quanto maior o buraco, menos papel higiénico terá o rolo. E eu, quando compro uma coisa, gosto de comprar o máximo possível dessa coisa, com o mínimo possível de espaço vazio. No fundo, gosto do meu rolo de papel higiénico como gosto dos meus sacos de batatas fritas: quanto menos ar, melhor.

A maior parte dos suportes de rolo de papel higiénico são da largura de uma simples caneta. Qualquer buraco no rolo maior do que isso, é só desnecessário. E quem diz rolo de papel higiénico, diz rolo de cozinha, que isso é tudo farinha do mesmo saco!

Depois, há ainda outro dilema: o que fazemos com o rolo, quando acaba o papel higiénico? Deitamos fora? Fazemos colecção no armário mais próximo da casa-de-banho? Damos aos nossos filhos para que eles possam construir bonitos animais cilíndricos na escola, para o Dia do Pai? É mesmo isso que queremos, restos de artigos sanitários para o Dia do Pai?!

Eu não sei, porque ainda não sou pai. Mas sou utilizador assíduo e fã confesso de papel higiénico, e, para mim, esta situação não pode continuar.

Abaixo os rolos! Acima o papel higiénico!

Mas não demasiado acima, porque convém que uma pessoa consiga chegar lá sem precisar de se levantar…


Abreijo.

Esclavagismo em cima do prato.

Eu saio pouco de casa. Quando saio, começo a contar os minutos até voltar para casa, porque, no fundo, e vão-me perdoar a sinceridade, eu não tenho paciência para vos aturar. É por isso que, quando realmente saio de casa, gosto sempre de ter a certeza de que vai valer a pena, e de que é por uma boa causa.

E é por isso que não percebo o conceito de buffet. Excluamos, desde logo, o facto de se parecer com uma palavra portuguesa bastante desagradável – a bufa – e analisemos em que consiste essa forma de refeição: VÁ VOCÊ FAZER! Ora, eu teria todo o prazer em fazer, claro… Se estivesse em casa! Mas como investi tempo e esforço para me preparar para sair de casa – tipo tomar duche e vestir uma roupa minimamente decente –, não me apetecia ainda ter de fazer o meu próprio prato fora de casa.

Porque, vistas bem as coisas, essa é a principal razão pela qual eu saí de casa: para não ter de me preocupar em tratar de mim próprio! Quero ter o privilégio de atirar dinheiro a alguém e ser essa pessoa a fazer aquilo que eu quero por mim. É só estúpido atirar dinheiro a alguém e ainda ter de trabalhar... Para isso, ia às meninas.

Dito isto, consideremos o buffet: qual é a diferença entre eu atirar duas folhas de alface e um bocado de carne para um prato em casa e fazer exactamente o mesmo num restaurante, mas a pagar? Correcto, a diferença é o “pagar”. É que nem é a velha questão do ‘pagar para ser mal servido’, é mesmo pagar para nem sequer ser servido!

E as pessoas engolem isto, literalmente. Ficam todas contentes porque pagaram e, agora, podem ir buscar o que querem comer. Isso também se faz nos supermercados, e por muito menos dinheiro do que num restaurante!

Como tentativa de atenuar este problema – no qual as pessoas não reparam que estão a ser alvo de uma espécie de escravidão gastronómica encapuzada –, alguns estabelecimentos adicionam ainda o “privilégio”, para justificar a sua barbárie, de podermos repetir o prato as vezes que quisermos. Ou seja, em vez de apenas um, porque não levanta você próprio o rabo da cadeira e vem elaborar mais outro prato de comida?
 
Enfim, se vocês não sabem o que fazer ao dinheiro ao ponto de irem elaborar pratos fora de casa, falem comigo. Abri um buffet novo ali na esquina. Só serve pontapés e chapadas na boca a pessoas com muito dinheiro, mas sem qualquer senso comum.

Abreijo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Opressão ao corta-unhas.

Comecemos com a tão necessária pergunta: porque é que eu não posso cortar as minhas unhas onde bem me apetecer?

Pronto, já estou alterado… Uma pessoa tenta não se exaltar, mas assim fica difícil! Isso da liberdade, que muitos apregoam, é muito giro, mas, pelos vistos, é só para alguns. Liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade religiosa e liberdade de voto, tudo bem. Agora, liberdade de cortar as minhas unhas num autocarro ou numa esplanada à beira-rio é que ‘tá quieto!

Quem foi o água de esgoto que decidiu que cortar as unhas em público era nojento? Por causa da suposta sujidade que se acumula? Quer dizer, se forem as unhas de um camionista, depois de um fim-de-semana em viagem constante e sem grande acesso a toalhetes húmidos, eu até percebo; é que o sebo entranha-se. Mas, as minhas, tão arranjadinhas?! Eu trato-lhes das cutículas todos os dias, lixo-as todas as semanas e pinto-as sempre que há ladies night: como é que são nojentas?!

Pode também haver quem argumente que é para evitar que os bocados de unha voem para a cara das outras pessoas, ao que eu respondo: “Ah, mas o paintball já é uma coisa muito linda, não é?!” O princípio é o mesmo: projécteis cheios de ‘nhanha’ lá dentro. E quem estiver muito incomodado, pode sempre passar a andar na rua com um colete à prova de bala; principalmente quando eu estiver a cortar as unhas dos pés, que são as mais imponentes.

Porque é que eu tenho de andar a cortar as unhas às escondidas na casa de banho, como um drogado? É assim tão mau, aquilo que eu estou a fazer? Serei o único que o faz? Preferem que as corte à vossa frente ou que as deixe crescer e vos faça um golpe no braço quando estiver a dar-vos um aperto de mão?

Ah, bem me parecia.


Abreijo.

sábado, 8 de agosto de 2015

A complexidade do foguete.

“BOOOM”, rebenta o foguete! Os mais atentos já sabem que há festa, algures na ilha. Os desatentos ouvem mas não ligam, porque está toda a gente tão habituada àquele som estridente que já nem se nota. Passou a ser algo completamente natural, como o barulho da chuva, o chilrear dos pássaros ou as cantigas alternadas em noite de cantoria.

Não há outro som que assinale tão bem uma festa como um foguete. No futebol há o apito, e em algumas corridas há o tiro. Coisas rápidas, efémeras… Que servem apenas o propósito de dizer que começou algo.
Já o foguete é, no geral, e por si só, puro espectáculo! Desde a forma como é aceso, normalmente por via de um cigarro no canto da boca, até ao espectáculo visual que cria no céu, de clarões e de fumaça, e que perdura por alguns segundos. Mais bonito se torna ainda quando os rebentamentos são múltiplos, ocorrendo num ritmo que já todos nós conhecemos de cor.

Há quem não goste, e até há quem tenha medo – quem se assuste com o barulho –, mas não há quem não o reconheça e não perceba o significado daquele som. Os mais assustadiços podem sempre recatar-se numa das várias casas sempre abertas do arraial, a enfardar comida e bebida na esperança, certamente, de conseguir tapar os ouvidos através do paladar, vá-se lá saber como.

O foguete é como a sineta da escola que todos odiávamos ou adorávamos, dependendo se tocava para o início das aulas ou para o começo do recreio. Também ele indica o início ou o fim das festas, motivando a alegria ou o desalento dos festivaleiros.

O foguete também é perigoso, não digo que não… Se for mal direccionado, ou se a cana cair a pique em cima de alguém ou de alguma coisa, até é capaz de fazer alguns estragos. Mas as pessoas arriscam na mesma porque sem foguetes não há festa e, sem festa, não dá para apanhar as canas e recordar os momentos em que os foguetes anunciavam o começo das festas.

Abreijo.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

As mãos dos pais.

Já aqui me exprimi sobre as qualidades praticamente indestrutíveis das mãos das mães no que diz respeito à sua resistência ao calor, mas a verdade é que os tijolos a que os progenitores do sexo masculino teimam em chamar de mãos também não lhes ficam atrás.

Falo por experiência própria: o meu pai tem mão pesada! E nem é por uma questão de eu ter levado palmadas quando era miúdo, que dessas até levei muito pouco porque sempre fui um rapaz bem-comportado e com cheiro a frutos do bosque, mas sim porque uma vez tentei dar-lhe um aperto de mão, como os senhores crescidos faziam, e ia ficando sem ossos.

Desconfio que, se o meu pai fosse um homem de negócios, nem precisava de dizer nada para fechar os contratos. Bastava-lhe apertar a mão do seu interlocutor quando se encontrassem e, das duas, uma: ou o indivíduo assinava logo o contrato com a mão ou teria de assiná-lo mais tarde, a equilibrar a caneta com os cotovelos. E teria sorte se não levasse uma “palmadinha nas costas”, que na óptica do meu pai é como levar com um muro de betão armado entre as omoplatas.

Mas desconfio que todos sejam assim. Parece, aliás, uma qualidade necessária para se ser pai. Ser-se pai com umas mãos suaves e cuidadas é o mesmo que ser-se pescador e não se chegar a casa com a roupa a cheirar a peixe. Não dá, faz parte da descrição do trabalho.

Mais, urge-se qualquer assistente social deste país que, caso veja um pai com as mãos sensíveis e perfumadas, retire logo a(s) criança(s) da sua custódia, porque aquele senhor não deve ser boa rês nem deve estar a cumprir devidamente as suas funções de pai, com certeza.

As barrigas dos pais merecem bastante atenção, sem dúvida, até pelo seu tamanho e pelo investimento que nela depositam. Mas é nas suas mãos que reside o seu verdadeiro valor.

Caro leitor, se vai ser pai brevemente e tem as mãos tão suaves como o futuro rabo do seu futuro rebento, então aconselho-o a ir trabalhar dois mesitos nas obras ou no campo. O primeiro mês será para se habituar, o segundo será para calejar as “habituações” do mês anterior.


Considere isto um conselho de amigo, apesar de eu, provavelmente, não o conhecer de lado nenhum.

Abreijo.

domingo, 14 de junho de 2015

Enumerar numerosos números.

“Trrim, trrim! Trrim, trrim!"

O vosso telemóvel está a tocar, não vão atender? Que toque tão antiquado, já agora… Quem será que vos está a ligar? É o vosso pai, a vossa mãe? O vosso chefe, o líder da vossa boy band, para gravarem um novo tema? Ou é um número que não conhecem? E, já agora… Como é que me identificariam esse número?

É aqui que começa a confusão, meus caros indivíduos. É na forma como dispomos os números de telemóvel, telefone, fax ou qualquer outro aparelho que exija a memorização de uma sequência numérica para o seu uso diário. Em específico, a forma como se parcelam esses números.

Eu vivi feliz até aos meus dez anos. Quando, aos onze, os meus pais decidiram que era altura de me comprar um telemóvel, por causa do sucesso do meu negócio de venda de lápis-de-cera comestíveis (que na verdade não o eram, mas eu dizia que sim porque sempre fui muito empreendedor), comecei a perceber que o Mundo não era cor-de-rosa. Quer dizer, eu sempre desconfiei, porque na minha infância as únicas coisas cor-de-rosa que havia eram as saias de um tio meu que tinha uns tiques esquisitos.

Mas foi a partir do momento em que tive de começar a dar o meu número de telemóvel às pessoas que percebi o que a vida custa. Como é que se deve dizer, afinal: através do clássico 900-000-000?; do 90-000-00-00?; do 90-00-0-000?; até do 9-000-00-000?; ou através do modelo de parcelamento de números de telefone mais utilizado em programas de televisão, o 900-00-00-00?

Sim, meus queridos coisos, aquelas pequenas pausas entre os conjuntos de números fazem toda a diferença! Não pensem que isto sou só eu a ser picuinhas, porque isso raramente é verdade. Se nos esticarmos em demasia nos números - com um 900000000 todo seguido, por exemplo -, até podemos, em casos extremos, falecer com falta de ar, tanto que hoje em dia já toda a gente reconhece a importância de uma respiração contínua e adequada. Porque é que continuamos, então, a exercer vários métodos distintos de parcelamento de números? Onde estão os regulamentos relativos a esta questão, Sr. Director deste tipo de cenas?

Além disso, a forma como parcelamos o nosso número de telemóvel pode fazer toda a diferença, por exemplo, num encontro de negócios, ou mesmo no próprio engate. O que acontece se a pessoa com quem queremos conectar tiver um sistema de parcelamento diferente do nosso e não gostar da forma como nos organizamos numericamente? Podemos acabar por deitar o negócio por terra, ou, pior ainda, o engate...

É por isso que, desde pequeno, quando me pedem o meu número de telemóvel - principalmente as gajas, aquelas mesmo boas e com bastante dinheiro para me comprar caixas inteiras de lápis-de-cera -, eu limito-me a mostrar-lhes o ecrã do telemóvel e evito dizer-lhes o número porque tenho medo de falecer com falta de ar. E também porque, vá lá, gosto de me fazer difícil.

Para terminar, perguntam-me vocês: "Gostosão, porque é que, neste texto, o teu número só tem um 9 e o resto é tudo 0?" Porque sim. Às vezes devemos deixar algumas questões por responder, de forma a que possamos adquirir uma melhor experiência deste espectáculo de luzes, cor e alegria a que chamamos vida.

E também porque não queria dar-vos o meu número verdadeiro, ouvi dizer que vocês são todos uns oferecidos.

Abreijo.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Lápis cor-de-quem, afinal?

Acho o racismo uma coisa horrenda, principalmente quando é promovido entre crianças. E reclamam vocês: "Então dizes isso dessa forma abrupta, sem nos avisar de antemão?" E eu respondo que é bem-feita, é o que vocês merecem depois daquilo que me fizeram naquele parque de estacionamento na esquina do coiso... Se não foram vocês, então peço desculpa.
Sim, a promoção de pontos de vista racistas durante o período de formação e educação das crianças é desagradável, principalmente quando elas querem estar concentradas nas aulas e não lhes é permitido. Veja-se o meu caso, por exemplo: quando eu era pequeno tinha um colega na minha turma que era africano, e sempre que eu lhe pedia o lápis cor-de-pele acabávamos por ter uma discussão, porque ele queria-me impingir o lápis castanho. Eu tentava explicar-lhe que não, não era bem aquele lápis que eu queria, mas ele, perante a minha impossibilidade e falta de meios para descrever aquela cor de outra forma, insistia.
E é muito isto, senhores formadores. Por que raio é que decidiram chamar uma qualquer cor de cor-de-pele? Onde é que tinham a cabeça, na Europa feudalista do século XVII?
Dou-vos, mais uma vez, o meu exemplo: no inverno, com a falta do Sol, a minha pele chega a ser quase translúcida, e eu sou, supostamente, caucasiano. Nos casos como o meu, também o lápis branco pode ser considerado cor-de-pele? E o lápis amarelo, se eu estiver mal do fígado? E o lápis roxo, se eu estiver embutido em 50 centímetros de neve? Ou será que, pelo contrário, quem se arriscar a tais denominações acaba por ter negativa no teste por não saber distinguir as cores?
Quem fala em racismo entre seres humanos, também pode falar de racismo entre plantas, entre frutas ou entre bebidas alcoólicas. E aqui vai: o cor-de-rosa, porque é que é cor-de-rosa? Todas as rosas são, vá lá, rosa? Não há rosas vermelhas, amarelas, brancas? Porque é que essas cores não são, também, chamadas de cor-de-rosa?
E o cor-de-vinho, porque é que se chama cor-de-vinho? Todos os vinhos têm aquela vermelhidão escura, a cair para o roxo? E o vinho branco, que nem é bem branco? E o vinho verde, que nem é bem verde?
A única denominação que acaba por fazer algum sentido é o cor-de-laranja, e mesmo essa fruta é verde ou amarelada quando está... pois, verde. Mas, estando madura, até faz sentido.
Pronto, era só isto. Não vos tomo mais tempo porque sei que têm de ir virar frangos, ir de mini-saia para a esquina ou seja lá o que vocês fazem para ganhar a vida.

Abreijo.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O rescaldo das mentiras.



Tenho-me como uma pessoa moderna, com Internet, Facebook e tudo isso. Mas não costumo mentir muito no Dia das Mentiras, apesar de mentir como um desalmado nos restantes dias, e por isso não me sinto muito progressista. Sinto que não acompanho verdadeiramente as tendências sociais, vá.
A verdade é que, na Internet, o Dia das Mentiras costuma ser o dia em que mais coisas acontecem às pessoas: ora engravidam, ora começam a namorar, ora marcam a data da boda de casamento, ora percebem que têm um problema de saúde, ora descobrem a cura para esse mesmo problema de saúde, ora ganham a lotaria, ora perdem todas as suas posses…
Enfim, no dia 1 de Abril é raro haver alguém a quem não aconteça nada. Não sei se é da primavera, se calhar as pessoas começam a sentir-se mais activas. Ou então é derivado dos açúcares consumidos no período pré-Páscoa.
Contudo, e apesar de o Dia das Mentiras deste ano já ter passado (ou não, dependendo do vosso calendário de leitura), tenho receio de que as sequelas ainda continuem. Senão, vejamos: muitas das pessoas que anunciaram naquele dia que estavam grávidas são da minha idade, e até do meu grupo de amigos… Entretanto, já vi algumas na rua a beber álcool e a fumar, e tenho medo que o bebé nasça deficiente como os progenitores.
Em relação aos namoros começados no dia 1 de Abril, parece que acabaram no dia a seguir, e sinto-me mal por fazer parte de uma geração que nem consegue manter uma relação durante um dia inteiro, quanto mais uma vida.
Já em relação às pessoas que descobriram alguma doença na sua vida naquele dia, a mesma parece ter desaparecido quando bateu a meia-noite. Não sei que moda é esta, mas prevejo muito pouco trabalho para os médicos nos próximos anos. Basta-lhes comprar um relógio para estar atentos às horas e, à meia-noite, ter as ambulâncias do hospital todas à porta para levar para casa os doentes, entretanto curados de forma milagrosa.
No fundo, a questão é a seguinte: o que é que aconteceu a toda a gente a quem aconteceu alguma coisa no dia 1 de Abril?

Abreijo.

quarta-feira, 25 de março de 2015

A paixão tem limites.

Caros casais apaixonados,

Sei que estão habituados a que as pessoas à vossa volta critiquem a vossa eterna pirosice, mas eu vou ainda mais longe: vou explicar-vos o porquê de as vossas pirosices serem, vá lá, parvas e, por extensão, criticadas.
Eu sei, o amor é lindo! Encontraram no(a) vosso(a) companheiro(a) aquilo que necessitavam para completar a vossa vida, nomeadamente carinho e outro órgão sexual que não o vosso. Percebo isso, a sério que sim... Mas não é por chamarem nomes estranhos e, sinceramente, perturbadores ao vosso parceiro que vão demonstrar ter um maior carinho por essa pessoa.
Senão, veja-se: os meus avós estão casados há várias dezenas de anos e, quando a minha avó chama o meu avô de bode, ele chama-a de mula; quando a minha avó o chama de porco, ele chama-a de galinha; quando ela o chama de boi, ele chama-a de cabra... Isto tudo porquê? Em primeiro lugar, porque os meus avós têm uma quinta com muitos animais e a falta de memória já não lhes permite lembrarem-se do nome um do outro. Depois, porque esses são os únicos termos carinhosos que eles conhecem, já que foram habituados a guardar as pirosices todas numa caixinha e atirá-la ao mar.
Contudo, isso não implica que se amem menos do que aquelas pessoas que se referem ao seu companheiro como, por exemplo, a sua "alma gémea". Mas esta gente ainda não reparou que, sendo elas gémeas, estão a incorrer em incesto de almas? Se duas almas gémeas tiverem um filho, esse irá nascer com uma alma deficiente ou com sérias possibilidades de ter um atraso? E se as almas são assim tão gémeas, o que as fez ser separadas à nascença? Houve uma troca no hospital das almas? E se, eventualmente, o casal se divorciar, as almas deixam até de ser família?
Depois, há a "cara-metade". O que é uma cara-metade? Estiveram a viver só com metade da vossa cara estes anos todos, antes de encontrarem o resto? Não admira que tenham demorado tanto a encontrá-la, porque ninguém gosta de pessoas só com meia cara... Uma vez, obrigaram-me a ver um filme de terror onde, a certa altura, alguém ficava sem a cara. Num caso desses, mesmo que essa pessoa encontrasse uma cara-metade, iria sempre faltar a outra metade, uma falha que teria de ser colmatada com ainda mais uma pessoa, vulgo cara-metade. Ou seja, acabaria por se tornar numa relação a três, e todos sabem que isso é pior do que qualquer filme de terror.
Por fim, existe o "mais-que-tudo", que acaba por ser um bocado paradoxal. Ora, o tudo engloba o vasto leque de coisas que existem na nossa realidade, e é impossível haver mais do que tudo. Tudo é tudo, e é melhor do que nada. Mais-que-tudo é só estúpido! É como uma criança argumentar com "vezes infinito" e a outra responder com "vezes infinito, mais um". Não faz qualquer espécie de sentido, até em termos matemáticos.
Queria agradecer, portanto, a vossa disponibilidade, prometendo não interromper mais a vossa vida conjugal a menos que continuem com estas tretas.

Sem mais assunto, de momento,
Com os meus melhores cumprimentos,
Um gajo que vos observa.
(Mas não de forma estranha.)

Abreijo.

quarta-feira, 18 de março de 2015

A essência do bocejo.

Eu não quero parecer aborrecido, mas... Porque é que abrimos o raio da boca quando estamos aborrecidos? Ou cansados? Ou sonolentos? Ou tudo junto?
Bocejar é algo que faço há dezenas de anos, mas só agora me lembrei de questionar o porquê. Se o tivesse feito mais cedo, talvez tivesse engolido menos moscas da fruta ao longo da vida. Não sei porquê, mas o raio dos bichos pelam-se pelo interior da minha boca. Eu nem sequer como assim tanta fruta quanto isso...
Não questiono, no entanto, o que nos leva a bocejar. Compreendo que haja uma série de reacções químicas e corporais relacionadas com o cansaço que nos levem a fazer isso. Questiono, isso sim, o porquê de ser aquela reacção, e não outra. Porque é que não nos dá para espirrar ou para bater palmas, quando estamos cansados? Até era da maneira que nos mantínhamos acordados...
Mas não, o que acontece é que abrimos a boca que nem um hipopótamo no dentista, dilatamos imenso as narinas e ficamos com umas espécies de espasmos na garganta que nos contraem as vias respiratórias, o que, no fundo, imagino que sejam um pouco como fazer sexo sadomasoquista. Não sei, nunca fiz... Nem sexo, nem sadomasoquismo. Ouviste, mãe?
Outro problema é que o raio da coisa é contagiosa! Uma pessoa pode ter acabado de dormir umas boas oito horas no camarote presidencial de um bom hotel à beira-mar, mas se a funcionária que lhe for buscar os lençóis para lavar abrir a boca que nem um alarve, então todo aquele quarto passa a parecer uma peça de ópera onde senhoras gordas cantam palavras indecifráveis num tom que só os cães conseguem ouvir.
Porque, é o seguinte: os carros têm um tubo de escape; os comboios, para além de um apito que "lá vai a apitar", têm uma caldeira; as fábricas têm chaminés; e até algumas panelas têm um buraquinho por onde guincham quando já estão muito quentes e cansadas. Já os seres humanos, e alguns outros animais, têm só uma figura ridícula e que lhes servem de pouco, já que, independentemente das vezes que bocejarem, o sono e o cansaço vão continuar sempre lá, até finalmente irem dormir.
Outra característica irritante do bocejo é que dificilmente se consegue disfarçar. O caro leitor deverá conhecer perfeitamente, até pela experiência, a cara com que ficamos quando tentamos esconder um bocejo... Parece que voltamos ao tempo em que éramos puros símios e comemos uma banana especialmente podre sem dar conta.
No fundo, a minha indignação deve-se ao facto de apenas aceitar abrir a boca várias vezes ao dia por duas únicas razões: ou porque estou a comer snacks de amendoins e quero colocar a maior quantidade possível deles entre as mandíbulas, ou porque estou a passar o dia numa praia a contemplar seios especialmente belos e abro a boca, não só por admiração, mas também porque tenho esperança que algum daqueles voluptuosos pares me vá parar a cada uma das bochechas da cara.
Tudo isto para dizer que não entendo o bocejo, pronto. Agora vou dormir, porque já bocejei três vezes em frente à janela do quarto e tenho medo que os vizinhos chamem a polícia por pensarem que estou a gritar com alguém cá em casa; ou isso, ou que estou a treinar uma ópera de Puccini.
Em qualquer dos casos, não admito que pensem isso de mim.
Abreijo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Os meus sentimentos.

Eu não gosto quando alguém morre. E nem é pela própria morte em si, porque às vezes nem gostava particularmente da pessoa e, para além disso, sei que todos nós, mais dia menos dia, também vamos partilhar o mesmo destino. A menos que alguém muito inteligente tenha um filho que acabará por inventar a cura para a morte, que pode vir em pequenas drageias tomadas de forma oral ou anal, dependendo do gosto de cada um. Mas como inteligência como a minha há poucas e não estou a pensar em ter filhos tão cedo - muito por causa da minha inteligência, lá está -, não contem com isso tão cedo.
O problema é que, enquanto morremos e não morremos, há sempre alguém que se adianta e morre mais cedo do que nós. E é aí que acontece, caso essa pessoa que morreu seja relativamente próxima de nós: as pessoas à nossa volta começam a sentir muito. "Sinto muito" para aqui, "sinto muito" para ali, as pessoas começam a fazer-nos sentir mal porque pensamos que não estamos a sentir o suficiente, como deveríamos. Pelo menos é o que acontece comigo.
Quando alguém me diz que sente muito, eu faço sempre questão de perguntar o quê. E fica sempre um silêncio constrangedor no velório, até porque se trata, lá está, de um velório. Mas tem de ser feito. É que se o sentimento for náuseas, comichão no couro cabeludo ou paralisia total dos membros inferiores, pois então que sinta, que naquela altura estarei pouco interessado nesse tipo de sentimentos, com certeza. Já se for pesar, tristeza ou até algum desalento, pois isso também eu sinto, e não estou num estado de espírito propriamente receptivo aos vossos próprios inúmeros sentimentos. Já me basta os meus.
É que se o vosso objectivo é competir com a pessoa próxima do morto, então isso é só parvo e não faz sentido nem de um ponto de vista qualitativo nem quantitativo. Qualitativamente, o facto de se acharem no direito de sentir mais sentimentos que o próprio familiar é só estranho, e até mórbido e imoral. Já quantitativamente, o facto de estarem a sentir centenas de sentimentos ao mesmo tempo não implica que sintam mais do que a pessoa em sofrimento em relação àquele assunto em particular.
Porque a questão é a seguinte, meus amigos... E se não tivesse morrido ninguém, vocês sentiam pouco? Tornavam-se seres apáticos, desprovidos de sentimentos? Se não morresse ninguém durante vinte anos, ficavam sem sentir esse tempo todo? Parece que as pessoas querem guardar todos os seus sentimentos até morrer alguém, para depois poderem dizer: "Sinto muito."
E depois há aquelas pessoas que, não se contentando em informar-nos acerca do que estão a sentir, nos querem dar os seus próprios sentimentos, sem sequer perguntar se os queremos. "Os meus sentimentos", dizem elas. Mas que tipo de sentimentos? Se eu tiver fome, alguém vai querer ficar com esse sentimento? A menos que esse alguém seja anoréctico, aí se calhar até apreciaria...
No fundo, a questão é a seguinte: o que vos leva a crer que, na eventualidade de uma morte, alguém quer os vossos sentimentos para alguma coisa? O receptor, se tiver os testículos no sítio, pode sempre dizer: "Olhe, fico-lhe muito grato pelos sentimentos que me quer transmitir, mas já tenho dores nos ossos da mudança de clima e não queria ficar também com a dor de cabeça que você me está a tentar passar à força toda, meu bandalho!" 
Lá está, desde que sejamos cordiais, as pessoas decerto irão compreender. Caso não compreendam, então olhem, sinto muito.

Abreijo.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Um país de irrequietos costumes.

Há quem diga que a corrupção impera em Portugal, o que eu condeno. Portugal não é um país de corruptos, é um país de hiperactivos com défice de atenção.
Sim, é verdade. Mudam-se os tempos, muda-se o palavreado. Antigamente, se eu me portasse mal e o meu irmão me desse um pontapé nas canelas estava apenas a educar-me; hoje, sofro de bullying. Antigamente, se eu me recusava a comer alguma coisa os meus pais enfiavam-me pela boca adentro; hoje, tenho um distúrbio alimentar. Antigamente, se eu não parava quieto e não prestava atenção na escola era mal-comportado; hoje, sou hiperactivo e tenho défice de atenção.
É isto que me parece que se passa com o nosso pequeno jardim à beira-mar plantado. O problema não está no jardim, nem pensar, mas sim no adubo que foi usado para o fazer crescer. Portugal cresceu irrequieto, com vontade de explorar e de extravasar os limites da sua existência. Depois dos alvoroços da adolescência, acabou por se tornar num jovem rígido e saudosista, preso à boa vida que tinha no passado. Hoje, é um senhor de meia-idade que começa a sentir todas as dores e mazelas das doenças que ignorou até então.
Mas a hiperactividade e a falta de atenção continuam lá! Os portugueses de hoje em dia nem são más rés, coitados, quanto muito são é esforçados demais. Desdobram-se em cargos importantes, em lugares nas salas de reunião das empresas, em direcções de bancos, atrás de púlpitos… Não conseguem fazer só uma coisa de cada vez, e por isso querem fazer tudo ao mesmo tempo. A sua hiperactividade permite-lhes saltar de cargo em cargo com a agilidade de um pequeno cão de caça, enquanto a sua falta de atenção impede-os de se manterem muito tempo a realizar sempre a mesma tarefa. Por isso, transitam de pasta em pasta como um saltimbanco engravatado que, apesar de nunca se fixar em sítio algum, ainda assim tem uma casa de férias no Algarve.
No meu tempo, a má-criação resolvia-se com uma palmada bem dada. Hoje, a hiperactividade implica consultas com psicólogos e especialistas e costuma terminar com algum tipo de medicação. Ora, eu não sei que tipo de comprimido se pode receitar a um país inteiro, nem qual o especialista que vai ter paciência para avaliar dez milhões de pessoas…
Mas, à falta de melhor solução, podemos sempre resolver o problema da mesma forma que ele era resolvido antigamente: uma palmada bem dada para levantar o rabo do chão, seguida de um bocadinho de choro e de birra e terminando com um pedido de desculpas resignado e com a promessa de que não nos voltaremos a portar mal.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Tudo a 100%.

Sou preguiçoso, mas odeio a preguiça. O que acaba por me dar demasiado trabalho, o ódio, porque, como já disse, sou preguiçoso. Vêem? É com este tipo de dilemas que lido todos os dias...
Mas eu sou daquele tipo de pessoa que leva os seus actos até ao fim, neste caso a preguiça. Por isso, odeio quem acha que pode vir para esta vida de preguiçoso só porque sim. Falo, pois está claro, dos produtos que prometem remover 99,9% daquilo que é pretendido remover.
Não me levem a mal, eu também quero ter uma cozinha mais limpa, uma sanita bastante bem desinfectada, um pé o menor atleta possível e um cabelo três vezes mais sedoso e com muito pouca probabilidade de se partir, seja o que for que isso significa. Mas desconfio de produtos que, a dedicarem-se a essa causa, não se dedicam até ao fim, quando estão tão perto de atingir a perfeição!
Veja-se o meu caso: Eu nunca seria capaz de comer apenas 99,9% de um saco de batatas, nem de beber apenas 99,9% de um sumo. Sim, são alimentos pouco saudáveis, mas vocês não têm nada a ver com isso! A única forma de deixar 0,01% de alguma coisa por fazer é se esse valor disser respeito à lavagem de roupa interior... Aí, convém deixar sempre uma pequena percentagem de fora, para não andar com o badalo a lamber o chão de arrasto enquanto a roupa lava e não lava numa máquina com apenas 0,01% de calcário.
Porque, é o seguinte: Se estes produtos removessem apenas 50,9% daquilo que foram feitos para fazer desaparecer - como nódoas, bactérias e fungos -, eu até percebia e aplaudia mesmo o esforço de terem conseguido remover mais de metade. Agora, 99,9%? Porquê morrer assim na praia, desistir a um passo da meta? Porque não esforçar-se mais um bocadinho, apenas 0,01%, e remover tudo de uma assentada?
E se eu comprar outro produto igual, para compensar a quantidade em falta na primeira embalagem, passo a remover 199,8% de alguma coisa? Será isso possível, sequer?
A todos os inventores destes produtos, um apelo: Porque não passam mais uma ou outra horinha no laboratório e acabam de inventar o 0,01% que falta? Custa-vos assim tanto? A vossa família vai gostar menos de vocês por terem ficado uma hora extra no trabalho? Até pelo contrário, são capazes mesmo de vos apreciar mais, pois assim têm a hipótese de ter um lar 100% limpo e a vossa mulher tem mais tempo para mandar o amante embora, que nem tem tido tempo para fazer conchinha com ela no fim do sexo.
O que achariam de um avião que apenas fizesse 99,9% da viagem? Ou de um trolha que apenas construísse 99,9% dos alicerces de uma casa? E o que dizer de um cozinheiro japonês que apenas tirasse 99,9% do veneno do peixe? Percebem onde eu quero chegar? Então parem de ser preguiçosos!
"Não deixes para amanhã o 0,01% de algo que podes fazer desaparecer hoje", já dizia a minha avó.
Era muito boa a matemática, o raio da velha... E a conselhos de vida também.

Abreijo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

As mãos das mães.

Se estão a ler isto no Dia da Mãe, então estão na época correcta e podem continuar a ler. Se não estiverem, o que eu até percebo porque as probabilidades são bastante baixas - uma em 365 (ou 366, se for ano bissexto) -, fechem qualquer que seja o suporte através do qual estão a ler isto e voltem só a abrir no dia correcto.
Vá, até breve!


Pronto. Agora que chegou o dia, vamos falar sobre mães. Já aqui falei da minha, e continuo-lhe extremamente grato por me ter parido. Parecendo que não, ainda lhe deu algum trabalho, principalmente na zona da genitália.
Tenho de admitir uma coisa: A minha mãe é uma super-heroína! A minha e, desconfio que, todas, porque aquilo de que vos vou falar agora é transversal a todas as senhoras que já puseram no Mundo algum rebento. É o seguinte: A capacidade que a minha mãe tem para pegar e manusear coisas quentes não é deste planeta. As mãos da minha mãe estão tão calejadas que desconfio que, para ela, as luvas de forno sejam um mero acessório de moda. Aquilo nem lhe chega a ser útil, apenas fica bem com aquela echarpe bege que comprou quando foi passar umas férias de Verão ao deserto do Saara.
É que, para provar uma refeição, a maioria das mães nem precisa de colher-de-pau: Põe a mão dentro da panela e tira um punhado do que quer que esteja a cozinhar. Se for sopa, faz uma conchinha com a mão e até dá a provar aos outros, que vão imediatamente para as urgências com queimaduras de segundo grau e bolhas de pus nas paredes interiores do estômago. Para a minha mãe, a comida nunca estava quente, eu é que era um mariquinhas. O que não deixava de ser verdade, embora a comida estivesse, efectivamente, quente...
Uma vez, propus à minha mãe uma sessão de manicura para me certificar de que ela ainda tinha mãos de carne e osso, e que não as tinha perdido um dia quando me estava a mudar a fralda, ou assim. Não só descobri que era muito bom a pintar unhas como também acabei por levar um estalo, porque ela não gostou dos Monets que eu lhe desenhei. Em suma, concluí que ela tinha umas mãos normais mas muito, muito pesadas.
Não quero, de todo, entrar naquelas brigas de crianças de "O meu pai é mais forte que o teu!", ou, "O meu avô come mais gajas do que o teu tio, que até faz da prostituição um estilo de vida!". Mas tenho a certeza de que a minha mãe era capaz de extinguir um vulcão activo atirando a lava ainda quente para dentro da caldeira vulcânica com as suas próprias mãos, sufocando-o. Tudo isto num dia de semana, enquanto via a novela.
No fundo, o que eu quero dizer é: A minha mãe é melhor do que a vossa, nhê nhê nhê, nhê nhê, nhê!
Raios, eu prometi que não ia fazer isto...

Abreijo.

sábado, 8 de novembro de 2014

Parabéns a vocês, meus bandalhos.

Pronto, acabou! Hão-de ter paciência, mas acabou... Estou farto, isto assim não pode continuar. Enquanto não pararem com estas brincadeiras, eu não faço mais anos. Não me interessa se fico na casa dos vinte indefinidamente, nem se nunca terei o prazer de gozar a reforma ou, até, de realizar uma colonoscopia. Já ouvi dizer que aquilo é melhor do que se pensa.
Já aqui falei da temática "bolo de aniversário", e desta vez o meu problema é com o que se põe em cima dele. A cobertura diabética? Não. As rosas, begónias e outras flores de massapão? Nem por isso. Quero acertar contas, isso sim, com as velas. E não é com as velas normais, porque essas até dão jeito quando falta a luz e antigamente até eram indispensáveis para quem desejava ver alguma coisa debaixo dos lençóis.
Vou contar-vos uma história: Quando eu era pequeno, tinha medo de fazer anos. Acordava suado, com tremores e sem apetite. Aos desejos de bom dia da minha família, eu respondia com um sorriso amarelo e um "Vão-se lixar!" mental, porque já sabia o que me esperava dali a algumas horas. Passava o dia todo a fazer cara feia para os meus colegas e professores, se calhasse em dia de escola, e para a minha almofada caso fosse fim-de-semana. Até podia jurar que, uma vez, a minha almofada me respondeu com um pirete. Já os meus professores, só me respondiam com socos nas têmporas. Enfim, eram tempos mais meigos...
Ao fim do dia, lá chegava o malfadado momento da festa de aniversário. Era nesta altura que o meu mau-humor atingia picos assustadoramente altos para um miúdo da minha idade, fosse ela qual fosse. Entrava pela sala onde estava o bolo, e toda a minha família, com a mesma camada de nervos com que um pugilista amador deve entrar ao enfrentar o campeão do Mundo de pesos pesados. E era aí que eu as via, compridas e esguias... Duas estacas de tortura em cima de um pedaço de massa colorido.
Finalmente, depois da musiquinha típica, lá tinha eu que lhes soprar. E soprava. E o Mundo abrandava à minha volta, o som tornava-se grave e abafado nos míseros segundos em que aqueles dois paus se mantinham às escuras. Depois voltavam a acender-se aos poucos, preguiçosos e gozões. E eu apagava outra vez, ou pelo menos pensava que sim. E eles voltavam a acender-se, podia jurar que com ainda mais força. Depois juntava-se outro membro da família para me ajudar, e aumentava o meu sentimento de impotência e inutilidade. Quando, finalmente, as velas se apagavam, todo eu era insegurança, compactada dentro de um miúdo de [inserir idade aqui] anos.
Isto tudo para dizer que eu, no fundo, não gosto de fazer figura de parvo. Muito menos no dia do meu aniversário. Por isso é que odiava essas tais velas que se voltavam a acender sozinhas, e odiava todas as pessoas responsáveis por trazer aquela monstruosidade para o conforto do meu lar. Aquilo não é divertido quando somos pequenos, meus caros, aquilo é tortura! Só os adultos à volta, os mirones da festa, é que se divertem ao ver a nossa triste figura.
No fundo, trata-se de entretenimento gratuito às custas de uma criança. E para isso já temos os primeiros passos, as primeiras palavras mal ditas e as primeiras bebedeiras de leite com creme de whisky. Não precisamos de a achincalhar no seu próprio dia de anos.

Abreijo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A mal-amada sétima arte.

Ora viva! Comecemos com uma declaração chocante: Eu não gosto de cinema.
Pronto, agora que já vos choquei, isso também não é bem assim. Quer dizer, eu até gosto de cinema, só não gosto é de ver filmes. Quer dizer, eu até gosto de ver filmes, mas não os consigo ver. E não é por impossibilidade de meios, até porque cinemas há muitos, leitores de DVD também e, vá lá, sejamos honestos, Internet.
Só não consigo ver filmes por uma limitação pessoal. É que são muito longos e, ao mesmo tempo, muito curtos. Sim, tirei o dia para vos fazer a cabeça em água... Este é um dilema que já me acompanha há vários anos, desde que descobri a magia das séries televisivas; esses pedaços pontuais de perdição e loucura videográfica... Peço desculpa, estava a pensar em pornografia.
Se eu vir um filme, por exemplo, no computador, pauso-o várias vezes para ir ver o email, para verificar o estado actual das redes sociais, para ir à casa-de-banho, para ir tratar do cão e, até, certa vez, para ir lavar a loiça. E faço isso não por obrigação, mas porque não consigo ver uma, duas ou até mesmo três horas seguidas de qualquer coisa sem ter que fazer uma pausa. Uma vez, uma namorada minha obrigou-me a olhá-la de lingerie durante apenas meia-hora, e passados dez minutos já eu estava a jogar às cartas com o meu sogro. Numa outra sala, claro...
E vocês argumentam: "Então vai ver ao cinema, meu palhaço!" E eu respondo: Palhaço não, que ainda não acabei a formação. Mas é inútil, também no próprio cinema tento sempre encontrar desculpas para que haja pequenas pausas no filme. Ou se me acabam as pipocas, ou se me acaba o sumo, ou se acabam as pipocas e o sumo da pessoa ao meu lado; ou se me dá vontade de ir urinar, ou se dá vontade de urinar à pessoa ao meu lado... Enfim, sou uma pessoa muito prestável e altruísta.
E, no entanto, apesar do muito tempo que demora um filme a terminar, a verdade é que o tamanho e a desenvoltura da história nunca me satisfazem. Acho sempre que ficaram coisas por contar, fico sempre à espera de um novo episódio na semana seguinte. Por isso é que, para mim, as séries televisivas são perfeitas, pois são cozinhadas numa rica e longa história e temperadas com várias pausas intercaladas, formando a dose, o aroma e a textura perfeitos.
Por isso, meus caros, deixem lá de me crucificar todas as vezes que digo que não sou fã de cinema. Não é por ele não ser bom, que às vezes até o é, mas sim porque tenho problemas de atenção.
No fundo, tenho uma forma estranha de hiperactividade, que é aquilo que, antigamente, se chamava só de má-criação.

Abreijo.

sábado, 16 de agosto de 2014

O Mundo segundo algumas pessoas.

Cerca de 7.000 biliões de habitantes literalmente, mais pessoa menos pessoa , 6.371 km de raio e 510.000.000 km² de superfície. Isto podia ser a descrição do meu pénis, mas não é. Nunca conseguiria alimentar tanta gente. Na verdade, isto é a descrição do planeta Terra, aquela bola azul gigante a que nos vamos agarrando ao longo das nossas vidas para não cair. E, no entanto, mesmo tendo conhecimento destas dimensões, ainda há quem tenha o desplante de afirmar que "o Mundo é mesmo pequeno".
Você não se esconda, caro leitor, que eu estou a ver os seus pés aí por debaixo da cortina. É altura de encarar a realidade e enfrentar as consequências dos seus actos verbais. Eu sei, com garantida certeza, que o leitor já se viu na situação de encontrar uma pessoa conhecida numa zona remota e de afirmar, bacocamente, qualquer variante de: "Engraçado, o Mundo é mesmo pequeno!" Ai o Mundo é pequeno?! Mas você já viu bem o Mundo? Isto é grande com'ó caraças! Eu até nem sou de casas grandes, mas aqui o Mundo encheu-me o olho porque tem umas assoalhadas robustas e que aguentam bem o peso dos móveis que eu trouxe da casa antiga... Que era, tipo, Marte, ou, sei lá. Para efeitos de comicidade, fica Marte.
De facto, o Mundo é capaz de ser das maiores coisas que já vi na vida, de perto. Dizem-me que o Sol é maior, mas ainda não tive oportunidade de lá ir fazer uma visita. Talvez no próximo Verão, porque dizem-me que aquilo é bom é no aperto do calor. Deve ter boas praias, ou assim...
Claro, à escala do Universo inteiro é facto que não passamos de um micróbio especialmente chato; mas à nossa escala individual, este planeta chega ainda a constituir um espaço bastante satisfatório. Tanto que, desde que me mudei para cá, nunca mais de cá saí. Sou uma pessoa muito caseira, eu.
Ainda para mais, encontrarem um outro ser humano num espaço público qualquer não é algo assim tão inédito. Indédito seria encontrarem o vosso furão ou a vossa iguana numa floresta do interior de África, sabendo que esses animais ainda não desenvolveram meios de locomoção mecânicos. Para quem tem um avião ou um barco, fica mais fácil encontrar pessoas conhecidas noutra parte do Mundo.
É que, ao longo da História, muita gente trabalhou e batalhou, até literalmente, para conseguirmos obter uma representação mais ou menos fiel da escala global. Vamos agora questionar todas estas concepções que temos vindo a fazer acerca do Mundo ao longo dos séculos só porque você reencontrou a sua tia-avó americana numa largada de toiros em Espanha enquanto o toiro lhe afagava violentamente uma coxa com o corno e decidiu que o Mundo, afinal, é mesmo pequeno? Tenha paciência, o egocentrismo fica-lhe muito mal. A mim até fica bem, como tudo aliás, mas a você nem por isso.
E pronto, basicamente era isto. Até logo, depois havemos de combinar um cafezinho.

Abreijo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Assobiadelas em construção.

Olá, pessoas bonitas! Quer dizer... Olá pessoas. Pronto.
Quem é que aqui sabe assobiar? É aquela coisa que envolve fazer um biquinho com os lábios e que não mete objectos fálicos nem câmaras fotográficas ao barulho. Agora, quem é que sabe assentar tijolo? É aquela coisa que ninguém quer ter que fazer, mas que tem sempre que calhar a alguns. Pois bem, se responderam de forma positiva a estas duas questões, há fortes possibilidades de vocês serem trolhas. E ainda bem, porque era mesmo com vocês que eu queria falar.
Eu tenho bastante apreço pela vossa labuta, a sério que sim. Mas a inovação é uma coisa necessária e até aconselhável praticamente em todos os trabalhos - excepto na venda de antiguidades -, e tenho sempre a ideia de que vocês não estão a inovar o suficiente. E a humanidade necessita da vossa inovação, por exemplo, no que diz respeito a dirigir assobios para gajas boas. Digam-me lá, há quantos anos usam o mesmo assobio para mostrar agrado em relação à constituição física de uma determinada pessoa? Todos sabemos de que assobio estou a falar, aquele "fui-fuiu!" a descair para o curto, mas com muita personalidade.
No fundo, somos todos um bocado trolhas, porque em todo o Mundo se recorre a um assobio idêntico. Já no que diz respeito aos piropos, somos uns artistas: "Ralava-te uma sopa de grelo com a minha varinha mágica!" e "A tua mãe merece a carta de piloto, porque não deve ser fácil parir um avião!" são verdadeiras obras de arte do mundo da construção civil, e da urbe no geral. Já a costumeira sonoridade do tal assobio torna-se repetitiva ao fim das primeiras, vá lá, duas décadas. Se ainda não estão convencidos - o que, desde já, demonstra alguma teimosia da vossa parte -, imaginem lá um Mundo onde os trolhas mandam sempre o mesmo piropo. É algo estranho, e até contranatura, não é?
Sim, se há coisa em que os trolhas são originais, para além de encontrar novos meios para esticar a factura, é nos piropos. E se o assobio é, no fundo, um piropo, então porque não variá-lo? Porque é que não começamos a assobiar uma das sinfonias de Beethoven quando vemos uma miúda gira? Uma qualquer, elas também não são esquisitas. Ganha-se em originalidade e em probabilidade de as engatar, porque ficarão a pensar que somos indivíduos com classe quando, na verdade, somos umas bestas. Quer dizer, eu não, mas vocês sim.
Pensem nisto, reflictam bem na vossa conduta piropeira. Se tiverem dúvidas em relação às quais eu possa ajudar, liguem para a minha secretária. Ela é pequenina, mas é feita em madeira maciça, de uma roseira que tinha no jardim. É resistente e trata-vos de tudo.

Abreijo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A nobre arte do arroto.

Se há família unida, é a minha. Não falo em termos de junções corporais, do género siamês, pegados pelas ancas, nem sequer em termos sentimentais. Eu, por exemplo, estou sempre a discutir com o meu cão. Embora ele seja mais de ladrar.
No que a minha família se mostra verdadeiramente unida é nos hábitos e nos costumes. Com efeito, no meu agregado familiar, quatro de cinco pessoas não conseguem arrotar. É um impedimento estúpido de se ter, bem sei, mas demonstra na perfeição a nossa profunda sintonia. A única que não está bem sintonizada é a minha mãe, porque consegue realmente arrotar, mas de qualquer forma eu sempre desconfiei que ela fosse mãe do padeiro. Espera, isto assim não funciona...
No fundo, somos um conjunto de pessoas extremamente bem-educadas à mesa, mas por razões que lhes são alheias. É como se estivéssemos a ser forçados a ter bons modos por uma qualquer entidade de etiqueta invisível. Menos a minha mãe, lá está, que essa é só javardona.
O que poderia ser considerado positivo, no entanto, acaba por ser algo incómodo e até relativamente nocivo. Isto porque o ser humano não foi criado para acumular gazes, tipo botija, e até a botija tem válvulas que lhe vão dando algum vagar. É por isso que, às vezes, gostava de ter nascido mais javardo, como a minha mãe, para poder ter uma válvula que não me deixasse afrontado cada vez que comesse uma colherada a mais de sopa de nabiça. E perguntam vocês: "Querias ser ainda mais javardo do que já és?"; e eu respondo-vos: "Não sejam parvos. E eu nem sequer gosto de sopa de nabiça."
É por causa desta absurda impossibilidade fisiológica que quando os membros da minha família bebem bebidas com gás ficam inchados como se fossem um pequeno cardume de peixes-balão. E eu até gosto de peixe, para variar um bocado da carne, mas nunca me imaginei nas escamas de um. Para além disso, já provei fitoplâncton e não gostei, é muito salgado.
E quando eu era miúdo, não arrotava? Claro que sim, e reparem que já começo a falar sozinho. Segundo a minha mãe, quando eu tinha cerca de três palmos era um campeão do arroto! Entretanto, pelos vistos, fui perdendo o fulgor. Talvez me tenha lesionado nos treinos, sei lá, depois de um dia especialmente intensivo a comer papas e puré de maçã. A partir daí, nunca mais consegui competir em arrotos com o bebé da vizinha do lado. O gajo era mesmo bom naquilo!
Pronto, tudo isto para que o caríssimo leitor fique a par de um aspecto especialmente interessante da minha vida, e da vida dos meus familiares. Mas não lhes diga que eu contei isto, que eles ficam chateados. Principalmente a javarda da minha mãe.

Abreijo.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Querem namorar comigo?

Olá, tudo bem? Deixem estar, não interessa.
Podemos falar um pouco acerca da genialidade dos bilhetes de amor que mandávamos na escola primária? Quanto a vocês não sei, mas eu sempre fui um romântico. Já em miúdo, a Minnie não era, para mim, apenas a gaja do Mickey, como diziam os meus amigos mais serranos, mas sim a sua donzela. No máximo, fazia uma ou outra piada sobre a sua rata, mas nada de mais.
Em relação às donzelas reais, da minha turma, eu também era um verdadeiro mini-Don Juan. Os bilhetes que mandava nos intervalos das aulas - sim, porque durante as aulas treinava-se a arte da sedução com a borracha do lápis na boca - eram carregadinhos de sentimento, desde a acutilância das perguntas "Gostas de mim?" ou "Queres namorar comigo?" até à multiplicidade estratégica das hipóteses de resposta, tudo envolto numa caligrafia de fazer inveja ao mais criativo artista plástico.
À pergunta do admirador, a visada respondia fazendo uma pequena cruz numa das três caixas à disposição, com as hipóteses "Sim", "Não" ou "Talvez". Desta forma, não se deixava nada em aberto. Por vezes, havia também uma quarta opção, "Se os meus pais deixarem", que implicava até um contrato com terceiros. Quem diz que os miúdos não têm lugar no mundo dos altos negócios nunca mandou bilhetes de amor em pequeno, com certeza.
No fundo, responder aos meus bilhetes era um bocado como jogar uma versão alternativa do Quem Quer Ser Milionário, com várias hipóteses de escolha, apresentada por uma folha de papel e onde o prémio final era o meu coração. Sim, um trem de cozinha talvez fosse mais útil, mas não constituía um prémio com tanto sentimento.
As paixões, essas, eram duradouras, porque eu não era cá menino de andar a saltar cercas. Nem no sentido figurativo, nem literal, porque tinha medo que os vizinhos se zangassem. Quem respondia positivamente aos meus bilhetes podia contar com o meu amor incondicional até à hora do almoço do dia seguinte, pelo menos, porque entretanto instalava-se aquela rotina do casal e a fome toldava-me todos os outros pensamentos.
Já o fim da relação era penoso e angustiante, porque implicava explicar a uma pessoa que ainda estava a aprender a tonalidade das vogais que a nossa relação não agourava um futuro promissor. Normalmente, quebrava o gelo dizendo: "Tal como esta conta de dividir se conjectura difícil, também a divisão do nosso amor se adivinha custosa para ambos." Era tiro certeiro. Às vezes, até acabavam por partilhar comigo o conteúdo da sua lancheira, como oferenda de paz.
Eram outros tempos, isso é certo. Hoje em dia, já só arranco folhas dos cadernos para fazer aviões de papel e enviar para os quintais dos vizinhos que me aterrorizavam em miúdo, quando lhes tentava saltar a cerca. Enfim, vicissitudes do karma.

Abreijo.